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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Homem Acima da Religião!

Eu gostaria de fazer duas perguntas bem diretas a todos os internautas que tem acesso ao meu blog:

1) O que vocês fariam se soubessem que um vizinho seu abusou sexualmente de várias crianças do seu bairro durante muitos anos?

2) O que vocês fariam se soubessem que um amigo desse seu vizinho sabia que ele abusava sexualmente de crianças mas foi omisso porque ambos participavam do mesmo time de futebol de várzea e nada foi feito para denunciar o estuprador?

Creio que a primeira reação diante da notícia de abusos sexuais envolvendo “seu vizinho” e “aquele amigo dele” seria uma mistura desagradável de muita revolta e indignação. Desta maneira, a única resposta possível para uma mente sã seria de que ambos os personagens são culpados pelos terríveis crimes, ainda que respeitadas as proporções de gravidade entre os dois comportamentos. Acho que este meu raciocínio estaria de acordo com praticamente todos aqueles que lessem este post. Seria quase que uma hunanimidade, correto? Bom, eu sei que são perguntas muito incômodas e aparentemente fora do contexto do blog mas eu explico um pouco melhor: as perguntas encaixam-se perfeitamente na situação que a Igreja Católica vivencia hoje ao ser acusada de pedofilia e abuso sexual. Na analogia acima, o vizinho equivale aos padres acusados e o amigo do vizinho equivale ao Papa Bento XVI. Exatamente igual!

Seria cômico se não fosse muito trágico o fato de fazer uma enorme diferença uma simples troca de personagens. Para muita gente, o crime é amenizado pelo fato dessas pessoas fazerem parte da estrutura institucional da Igreja.

Peço desculpas pela insistência no mesmo assunto mas é que estou muito incomodado com os comentários que eu vejo por aí em sites de notícias por parte dos fiéis que, mesmo diante desse quadro absurdamente inaceitável, ainda defendem com unhas e dentes o Papa e sua religião. O respeito à dignidade humana deve estar necessariamente acima de qualquer partido político, raça, classe social ou religião. Eu disse acima de qualquer religião! Não interessa a procedência, história, mártir, líder ou santo. Não interessa!

Quanto mais nós colocamos a religião acima do respeito e da dignidade humana, mais longe nós estamos de vivenciar um mundo melhor. Quanto mais nós achamos que pelo fato de um estuprador vestir uma batina ou um criminoso ser o líder de uma religião ambos mereçam tratamento especial, mais nós estaremos contribuindo para afundar este mundo em uma Segunda Idade das Trevas.

Abaixo toda a escuridão da autoridade religiosa! Viva a luz da grandiosidade humana!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pior Cego é Aquele Que Não Quer Ver

O Padre Raniero Cantalamessa, durante a missa da Sexta-Feira Santa na Basílica de São Pedro, declarou que as recentes acusações de escândalos de pedofilia contra o Papa Bento XVI e a Igreja Católica equivalem "aos aspectos mais vergonhosos do antissemitismo". Figura influentre no Vaticano e único autorizado a pregar para o Papa, Cantalamessa recebeu críticas em todo mundo por dizer tamanha besteira e inflou ainda mais a indignação de inúmeras pessoas como o secretário geral do Conselho Central de Judeus da Alemanha, Stephan Kramer, o qual comentou:

"É repulsivo, obsceno e sobretudo ofensivo a todas as vítimas de abuso, bem como a todas as vítimas do Holocausto", declarou Kramer. "Até o momento eu nunca vi São Pedro pegar fogo, e também não houve explosões de violência contra padres católicos. Estou sem palavras. O Vaticano agora tenta transformar algozes em vítimas."

E é exatamente isso. A primeira estratégia do Vaticano frente às atrocidades foi a omissão. Depois, veio o silêncio, fingindo que não estava acontecendo nada de errado nos bastidores da Igreja. Em seguida, culparam até o Diabo pelos “ataques à Igreja” (os padres molestam inocentes e é Satanás quem vira o responsável pelo comportamento hediondo – veja mais no blog Pensamento em Extinção). E agora, parece que a posição oficial da Igreja frente às acusações de pedofilia é “dar uma de vítima”. Insinuar que é tudo “perseguição” e ainda comparar acusações de pedofilia com “antissemitismo”, obriga-nos, paradoxalmente, a ter dó de estupradores só porque estes vestem batina!

O pior é que na página do G1 onde está publicada a notícia, existem comentários de pessoas que ainda defendem o padre Cantalamessa, o Papa e a Igreja, alegando que o Deus está com o Papa e que não existe nada de errado apesar das acusações. Quer dizer, não existe nada de errado porque certamente não foram essas pessoas as vítimas de estupro ou abuso sexual. Se tivessem passado por essas horrendas experiências, certamente teriam uma opinião bem diferente.

É impressionante o que a fé religiosa faz com as pessoas. Deixam-nas cegas, mesmo aquelas que são de boa-índole e não são fanáticas em suas crenças, ao ponto de ficarem irracionalmente ao lado de charlatões, fascínoras e criminosos. Defendem sua fé com unhas e dentes, mesmo que isso custe o sofrimento de crianças que foram abusadas sexualmente por homens nos quais elas depositaram a sua mais inocente confiança. Para cada ato de indiferença, acobertamento ou "vista grossa" dos católicos em relação aos abusos sexuais dentro da Igreja, há um certo grau de conivência com o abominável que torna cada um desses fiéis responsáveis indiretos pela perpetuação da atrocidade. A cegueira é tanta que, no caso de uma hipotética segunda vinda de Jesus, o pobre do nazareno seria torturado mais uma vez pelos seus próprios seguidores, incapazes que estes seriam de reconhecer a autenticidade de seu messias pelo espesso véu de sua fé.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quero Ter Uma Igreja

Recebi a matéria abaixo de um amigo meu e segue o link para acesso direto ao site UOL da Folha de São Paulo.

Fiquei estarrecido com a facilidade para se criar uma Igreja no Brasil, “santa decisão” que acaba por abençoar os fundadores das recém-criadas instituições com isenções fiscais e outras regalias. Além disso, a ausência de fiscalização do Estado sobre o movimento das contas das Igrejas possibilita toda a sorte de contravenções, haja visto, só para citar um exemplo, o conteúdo do post "Diploma de Idiota" onde eu comento sobre a denúncia contra o bispo Edir Macedo e mais 9 pessoas por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. São por essas razões que vemos uma proliferação de Igrejas, principalmente as de caráter evangélico, as quais enriquecem descaradamente às custas da ignorância de um povo cada vez mais sem cultura, sentenciados pela política “lulística” do bolsa-família e pela educação de baixíssima qualidade. E quanto mais ignorantes forem os fiéis, melhor para os interesses desses “nobres senhores engravatados”, os quais figuram como “salvadores” entre os sangue-sugas da sociedade brasileira. Mantendo os seguidores subservientes como um rebanho de cordeiros, tal qual apregoam ironicamente as suas próprias parábolas, até o direito ao ensino religioso nas escolas públicas esses bispos possuem, conforme é lamentavelmente passível de ser verificado no final da matéria. Mas acho que o texto fala por si só.

Segue então o referido texto, o qual inspira-me a fundar minha própria instituição religiosa, “Igreja da Sagrada Opulência As Custas da Abençoada Ignorância Alheia”:

"Bastam R$ 418 para criar igreja e se livrar de imposto

Após fundar igreja, reportagem da Folha abre conta bancária e faz aplicação isenta de IR.
Além de vantagens fiscais, ministros religiosos têm direito a prisão especial e estão dispensados de prestar serviço militar.

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Bastaram dois dias úteis e R$ 218,42 em despesas de cartório para a reportagem da Folha criar uma igreja. Com mais três dias e R$ 200, a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio já tinha CNPJ, o que permitiu aos seus três fundadores abrir uma conta bancária e realizar aplicações financeiras livres de IR (Imposto de Renda) e de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
Seria um crime perfeito, se a prática não estivesse totalmente dentro da lei. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para a constituição de uma igreja. Tampouco se exige um número mínimo de fiéis.

Basta o registro de sua assembleia de fundação e estatuto social num cartório. Melhor ainda, o Estado está legalmente impedido de negar-lhes fé. Como reza o parágrafo 1º do artigo 44 do Código Civil: "São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento".

A autonomia de cada instituição religiosa é quase total. Desde que seus estatutos não afrontem nenhuma lei do país e sigam uma estrutura jurídica assemelhada à das associações civis, os templos podem tudo.

A Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio, por exemplo, pode sem muito exagero ser descrita como uma monarquia absolutista e hereditária. Nesse quesito, ela segue os passos da Igreja da Inglaterra (anglicana), que tem como "supremo governador" o monarca britânico.

Livrar-se de tributos é a principal vantagem material da abertura de uma igreja. Nos termos do artigo 150, VI, b da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com suas finalidades essenciais.
Isso significa que, além de IR e IOF, igrejas estão dispensadas de IPTU (imóveis urbanos), ITR (imóveis rurais), IPVA (veículos), ISS (serviços), para citar só alguns dos vários "Is" que assombram a vida dos contribuintes brasileiros. A única condição é que todos os bens estejam em nome do templo e que se relacionem a suas finalidades essenciais -as quais são definidas pela própria igreja.

O caso do ICMS é um pouco mais polêmico. A doutrina e a jurisprudência não são uniformes. Em alguns Estados, como São Paulo, o imposto é cobrado, mas em outros, como o Rio de Janeiro e Paraná, por força de legislação estadual, igrejas não recolhem o ICMS nem sobre as contas de água, luz, gás e telefone que pagam.

Certos autores entendem que associações religiosas, por analogia com o disposto para outras associações civis, estão legalmente proibidas de distribuir patrimônio ou renda a seus controladores. Mas nada impede -aliás é quase uma praxe- que seus diretores sejam também sacerdotes, hipótese em que podem perfeitamente receber proventos.

A questão fiscal não é o único benefício da empreitada. Cada culto determina livremente quem são seus ministros religiosos e, uma vez escolhidos, eles gozam de privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (CF, art. 143) e o direito a prisão especial (Código de Processo Penal, art. 295).

Na dúvida, os filhos varões dos sócios-fundadores da Igreja Heliocêntrica foram sagrados minissacerdotes. Neste caso, o modelo inspirador foi o budismo tibetano, cujos Dalai Lamas (a reencarnação do lama anterior) são escolhidos ainda na infância.

Voltando ao Brasil, há até o caso de cultos religiosos que obtiveram licença especial do poder público para consumir ritualisticamente drogas alucinógenas.

Desde os anos 80, integrantes de igrejas como Santo Daime, União do Vegetal, A Barquinha estão autorizados pelo Ministério da Justiça a cultivar, transportar e ingerir os vegetais utilizados na preparação do chá ayahuasca -proibido para quem não é membro de uma dessas igrejas.

Se a Lei Geral das Religiões, já aprovada pela Câmara e aguardando votação no Senado, se materializar, mais vantagens serão incorporadas. Templos de qualquer culto poderão, por exemplo, reivindicar apoio do Estado na preservação de seus bens, que gozarão de proteção especial contra desapropriação e penhora.

O diploma também reforça disposições relativas ao ensino religioso. Em princípio, a Igreja Heliocêntrica poderá exigir igualdade de representação, ou seja, que o Estado contrate professores de heliocentrismo."

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uma Sociedade de Certezas

Quem nunca foi vítima de um “auto-embuste” ao dizer para alguém que tinha certeza de algo e depois descobrir que estava redondamente enganado a respeito do assunto? Pode ser que uns mais e outros menos mas, de uma forma ou de outra, todo mundo já foi obrigado a encarar suas próprias pisadas de bola e reconhecer, mesmo que apenas internamente, que estava completamente equivocado em relação à alguma coisa. Alguns vão dizer que esse problema ocorre frequentemente, outros vão dizer que talvez estejam 50% do tempo certos e 50% do tempo errados mas, certamente, muitas são as pessoas que acreditam estar quase o tempo todo certas. E são justamente essas as pessoas que mais fazem estragos a si próprias e ao mundo ao seu redor.

Vivemos em uma sociedade condicionada a lidar apenas com a certeza. Ainda em tenra infância, demonstrar dúvidas, dizer que possui uma informação parcial ou ainda não saber a verdade sobre algo é sempre visto como sinal de fraqueza do espírito ou de uma pessoa sem personalidade que vive perambulando sem objetivos na vida. Nossa cultura supervaloriza a certeza e menospreza a dúvida além de estimagtizar o que seria um comportamento de sucesso: geralmente um indivíduo de personalidade forte que traçou objetivos e seguiu atrás daquilo que queria, mesmo que para manter-se no caminho tenha passado por cima das outras pessoas feito um rôlo compressor. Quando erramos, então, sentimo-nos constrangidos, procuramos esconder o erro, jogar para debaixo do tapete, fingir que não fomos nós e, se não tiver jeito, ainda acusamos o outro. Nem parece que somos humanos. Em uma sociedade assim, cheia de “super-humanos que nunca erram”, como eu vou assumir a minha culpa, a minha derradeira parcela de responsabilidade nas pisadas de bola que eu dou? Não vou assumir a culpa mas nem a pau! Exagêro o que eu estou tentando dizer? De jeito nenhum...

As próprias religiões encarregaram-se de culpar alguém pelos nossos erros há milhares de anos atrás, visto que era difícil lidar com o trauma psicológico das dores, sofrimentos e atrocidades que nós, seres humanos, sempre causamos uns aos outros. Além disso, quer uma melhor forma de controlar a mente das pessoas do que através da religião? Para tanto, trataram de criar a personificação do mal, como se a responsabilidade pelos nossos atos pudesse ser transferida para uma entidade além dos limites do reino humano. Com isso, construiu-se a concepção de mal personificado: demônios, seres das trevas, Satã, Satanás, Belzebu, Lúcifer, Diabo, Capeta, Asmodeus, Excomungado, Senhor dos Infernos e outras derivações de múltiplos nomes e aspectos específicos mas que, na totalidade, ficaram incumbidos de serem responsabilizados pelas besteiras cometidas por seres humanos.

E na prática essa invenção secular começou a funcionar da seguinte forma: Pisou na bola? Foi um momento de fraqueza, foi o diabo quem te tentou... Jogou a culpa no outro? Foram os espíritos das trevas que confundiram o seu discernimento... Matou alguém? Foi Satã quem tomou seu corpo e contaminou a sua alma... Deixou de ter fé? São os demônios que se aproveitam de você e enfraquecem as suas certezas...

Pronto! Estava explicado e resolvido todos os problemas, pois além da criação da personificação do mal poderíamos agora levar vantagem e oferecer o antídoto para todas as moléstias: a religião. Não qualquer religião, obviamente... mas sempre a minha. A minha religião ou Igreja é sempre a mais “eficaz” contra o inimigo mais perigoso do homem: o diabo, o "bode-expiatório" convenientemente inventado para levar toda a culpa (vide o post "Deus é Gente (parte 2)" para maiores detalhes).

Nossa incapacidade em lidar com nossos próprios erros continua a ser asssutadora. Vemos isso todos os dias ao sermos atendidos pelo “infalível” call center das operadoras de telefonia celular, quando os atendentes, em último caso, estão sempre certos. No trabalho, acusar o outro é prática mais do que consolidada, pois indivíduos e empresas (as quais são formadas por conjuntos de pessoas) sempre se encarregam de empurrar os problemas oriundos deles próprios para outras empresas ou pessoas. A certeza não tem obrigatoriedade alguma de estar atrelada ao conceito de verdade e, nos noticiários, ela impera absoluta, com destaque especial para o campo da política. No cenário político nacional, a problemática que tento descrever por aqui aparece de forma doentia e amplamente disseminada: ninguém erra, ninguém pisa na bola, ninguém toma as decisões erradas, ninguém deixa de planejar, ninguém leva vantagem, ninguém engana, ninguém rouba... Mesmo com câmeras registrando tudo as pessoas continuam a negar o erro veementemente, passando a acusar o equipamento ou as circunstâncias envolvendo a gravação. Ou seja, como transgressor, moldo a realidade externa de acordo com o meu interesse particular mas não assumo que estou errado. O universo pode estar errado mas eu não! Impressionante! Nunca vi tantos “super-humanos” trabalhando em um único campo de atuação. É por isso que a política brasileira representa com bastante maestria o orgulho nacional e um exemplo a ser seguido para o restante mundo!

Existe uma atitude mais bonita, mais grandiosa e de humanismo mais transcendental do que uma pessoa admitir que pisou na bola? Que se equivocou? Fez um julgamento falho? Cometeu um deslize? Meteu os pés pelas mãos? E isso parece ser algo cada vez mais raro hoje em dia. Mostrar certeza externamente, mesmo que interiormente você seja um mar de dúvidas é o ideal a ser seguido e mantido a todo custo. Ao invés da dúvida ser encarada como oportunidade de revisão, aprendizado e mudança, é encarada como um sério defeito da personalidade. E no pior dos casos, a certeza forjada pode funcionar como um terrível ferramental de controle, pois quanto maior for a sua certeza (ou fé) em relação ao seu dogma, maior será o nível de manipulação que você sofrerá pela ação de padres, sacerdotes, gurus, mestres ou pastores. Você não apenas será levado facilmente ao ponto em que tais autoridades planejaram, mas também será agente de manipulação de outras pessoas.

Dentro desta perspectiva de inversão de valores, onde a dúvida é menosprezada e a certeza exaltada com todas as forças, sabe quando o mundo irá melhorar? Quando eu e você, caro internauta, começarmos a assumir nossa parcela de responsabilidade dentro do cenário humano, o qual dá continuidade à uma sociedade cheia de certezas e, acima de tudo, abarrotada de hipocrisias...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Arautos da Idade Média

No post “Brasil Abre As Pernas Para O Vaticano”, eu fiz um comentário sobre a extinção de uma linha mais socialista dentro da Igreja, tal qual foi a Teologia da Libertação nos anos 1970, em detrimento do crescimento da direita, focado muito mais no indivíduo e na família. Falei sobre o crescimento de um movimento ultra-tradicional e mencionei até uma eventual volta do falecido movimento TFP (Tradição, Família e Propriedade). Opa! Falecido movimento? É... Infelizmente, me enganei feio... Esse grupo não só ainda existe como está ganhando cada vez mais força, só que agora utilizando uma outra denominação: Arautos do Evangelho. Ironicamente (seria cômico se não fosse trágico), neste final de semana prolongado, um grande amigo meu foi vítima de uma associação católica de extrema direita que, para a minha surpresa, descobri ser uma dissidência do TFP (pasmém!). Mas vamos ao incidente do meu amigo com o "ressuscitado" grupo fundamentalista cristão:

Meu amigo é casado, sua mulher compartilha do seu ponto de vista "filosófico" e ambos são pais de uma filhinha de 6 anos. Constituem uma família agnóstica que vive de forma pacífica em um condomínio fechado cuja localização será omitida em respeito aos envolvidos. Ao receber no domingo, dia 11 de Outubro, uma ligação dos Arautos do Evangelho dizendo que os membros dessa organização estariam fazendo uma visita à sua casa, levando a imagem da Virgem Maria numa espécie de novena, meu amigo, respeitosamente, agradeceu e disse que não estava interessado. Questionado sobre as razões desse seu desinteresse (até então ele não havia sentido qualquer necessidade de entrar no mérito da questão), meu amigo mencionou que era ateu. Pronto! A partir de então, começou uma série de ligações, insistindo para que meu amigo aceitasse a visita deles, dizendo que tinham aberto uma paróquia dentro do condomínio (pasmém!) e até oferencendo presentes em nome do bispo deles como forma de chantagem. Meu amigo, irritado com tamanha insistência, disse que não gostaria de ser mais importunado e que era para deixarem ele e sua família em paz. Pouco tempo depois, ao sairem em pleno domingo para almoçar e já do lado de fora da casa, preparando-se para entrar no carro da família, um automóvel com 4 homens vestidos à caráter (túnicas de cor marrom e uma cruz estilizada no peito) apareceu na frente da sua casa e os estranhos ocupantes começaram a olhar para ele de forma ameaçadora. Tudo isso dentro de um condomínio fechado, local ecolhido pelo meu amigo justamente para ser um refúgio seguro para sua família!


Meu amigo relatou-me esse absurdo acontecimento hoje e, por pura curiosidade, decidi investigar sobre os Arautos do Evangelho na Internet – e fiquei embasbacado com o que eu descobri! Não se trata de uma pequena associação religiosa sem grande expressão e sim um poderoso grupo católico reconhecido pelo Vaticano e com presença confirmada em 78 países. Os caras são uma bem-sucedida dissidência do TFP, resultado de um racha ocorrido por ocasião da morte do então presidente da organização, Plínio Corrêa de Oliveira. E para quem não faz a mínima idéia do que foi o TFP e acha o teor deste post algo sem a menor importância, vale aqui um pequeno mas importante histórico:

Baluarte do anticomunismo, cultuadora de ícones medievais, propagandista da castidade, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, foi um dos movimentos mais conservadores e reacionários do Brasil até meados da década de 1990. Com forte envolvimento na política da sociedade brasileira, colaborando inclusive com o regime da ditadura militar, se dependesse da organização direitista o mundo de hoje continuaria chafurdando nos negros pântanos da Idade Média. Desde a morte de seu criador, Plinio Corrêa de Oliveira, a entidade vinha sendo tocada pelos seus oito sócios-fundadores, como mandava o regulamento criado em 1960. Um movimento rebelde, no entanto, anulou o estatuto da TFP, valendo-se de um dispositivo legal segundo o qual uma sociedade civil sem fins lucrativos não pode ser gerida sem consulta a seus integrantes. Em meio a várias idas e vindas jurídicas, os rebeldes convocaram uma assembléia, elegeram uma nova diretoria e, em plena quarta-feira santa, tomaram posse do casarão do bairro paulistano de Higienópolis onde funciona a sede da entidade. Chegaram acompanhados de cinqüenta policiais – e, ao entrar, constataram que vários tapetes e imagens haviam sido levados pelos seus antecessores. Os antigos gestores da TFP perderam o direito não apenas ao teto, mas também à sigla e até ao brasão. O leão rampante sobre fundo vermelho estampado nos estandartes da entidade era referência a um grupo de militantes da Igreja tradicionalista do início do século XX. Impossibilitados de usá-lo, os sócios-fundadores adotaram um leão parecido, só que com cara de bravo e segurando uma espada de fogo – talvez para mostrar que não irão desistir da briga facilmente.

Quem entra no site da associação e da faculdade dos Arautos do Evangelho não deixa de notar com espanto o apelo medieval da sua arquitetura, ornamentos, roupas e adereços. Impressiona também a utilização de coturnos (botas do exército) por debaixo da túnicas, fazendo clara alusão à disciplina militar e utilização de força, caso seja necessário defender aquilo que for considerado como "sagrado" (vale reforçar aqui o comportamento ameaçador na frente da casa do meu amigo). Para quem leu o Código da Vinci, as imagens dos seguidores remete-nos muito às descrições do obscuro personagem de Dan Brown, Silas, integrante da organização cristã conhecida por Opus Dei em sua famosa obra. Enfim, trata-se de um movimento fundamentalista de extrema direita, retrógado e altamente poderoso, o qual ganha cada vez mais espaço na região metropolitana de São Paulo. Com uma grande escola na região da Granja Viana e uma monumental construção conhecida no local como "castelo", a qual devastou 12 mil metros quadrados de mata nativa próximo aos condomínios de alto padrão da Serra da Cantareira, a estratégia de crescimento da organização visa apelar para as classes mais abastadas, já que a própria associação é proprietária de 250 imóveis somente no Brasil.

Fica aqui o meu protesto contra essa abordagem desrespeitosa e entimidadora por parte dos Arautos do Evangelho bem como nossa atenção redobrada para o perigoso crescimento de inúmeras seitas no Brasil, especialmente movimentos já conhecidos e com passado condenável. A expressão "o brasileiro tem memória curta" nunca foi tão atual e pertinente, sendo muito assustador organizações como esta voltarem à tona com a omissão e consentimento da nossa sociedade. A constituição brasileira prega a liberdade de culto mas não menciona nada sobre "liberdade para evangelizar", sendo este segundo item o objeto de crítica mais fundamental deste post. Sendo um país altamente religioso, tendemos a fazer vista grossa para os processos de evangelização, coniventes que somos com a conversão de novos adeptos sob a alegação de que vivemos em um país que goza de liberdade religiosa. E tal argumento é utilizado para justificar a crescente escalada do Cristianismo nas suas mais diferentes formas e pelos mais condenáveis meios, sendo que, por outro lado, a liberdade areligiosa não é mencionada em canto algum. Ateus e agnósticos não estão com seus direitos assegurados pela constituição também?

Embora seja infantil insinuar que a Opus Dei nos moldes da descrição de Dan Brown e os Arautos do Evangelho constituem a mesma coisa, o Código da Vinci não parece ser mais assim algo tão ficcional. Logo, espero que os leitores não sejam abordados por um "Silas" da próxima vez que estiverem saindo para almoçar em um lindo domingo de sol. Se derem esse tremendo azar, não venham dizer depois que foram pegos de surpresa...

Abs:

Marcio

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mais Uma Vitória do Cristianismo

“A juíza da 3ª Vara Cível Federal de São Paulo, Maria Lúcia Lencastre Ursaia, determinou que os símbolos religiosos (crucifixos, imagens, entre outros) poderão permanecer nos órgãos públicos. A decisão liminar da juíza indeferiu o pedido do Ministério Público Federal (MPF) para a retirada dos símbolos dos prédios públicos. A ação teve início com a representação do cidadão Daniel Sottomaior Pereira, que teria se sentido ofendido com a presença de um crucifixo num órgão público.

No pedido feito dia 31 de julho, o MPF entendeu que a foto do crucifixo apresentada pelo autor desrespeitava o princípio da laicidade do Estado, da liberdade de crença, da isonomia, bem como ao princípio da impessoabilidade da administração pública e imparcialidade do Poder Judiciário. Porém, a juíza entendeu que não ocorreram ofensas à liberdade de escolha de religião, de adesão ou não a qualquer seita religiosa nem à liberdade de culto e de organização religiosa, pois são garantias previstas na Constituição.

Para a magistrada, o Estado laico não deve ser entendido como uma instituição antireligiosa ou anticlerical. "O Estado laico foi a primeira organização política que garantiu a liberdade religiosa. A liberdade de crença, de culto e a tolerância religiosa foram aceitas graças ao Estado laico e não como oposição a ele. Assim sendo, a laicidade não pode se expressar na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos", afirmou ela, na decisão.” (fonte: site do Estadão).

De acordo com o texto acima, a interpretação da juiza Maria Lúcia Lencastre Ursaia, infelizmente, não tem nada de justo, isento ou laico. É um julgamento tendencioso, justamente por ser garantido na constituição que o Estado deve ser isento de qualquer manifestação religiosa. Deve, mas está longe de ser... A juíza está certa quando argumenta que o Estado laico garante a liberdade religiosa. Todavia, não há como garantir tal liberdade permitindo que o próprio Estado tome partido na “defesa velada” desta ou daquela religião (a liberdade de uso da máquina do Estado para a divulgação religiosa só vale para o Cristianismo?). Sendo o papel do Estado o de mantenedor da liberdade religiosa para todos os brasileiros (com a desejada atenção especial às minorias), este não pode ser conivente com a manifestação aberta de qualquer religião dentro da sua própria estrutura, ainda mais com o agravante de ser uma conivência em favor da religião mais influente do país. A tolerância mencionada por ela deveria considerar como prioridade as religiões menos representativas, as quais simplesmente não possuem voz em uma sociedade predominantemente cristã. Para esclarecer um pouco mais o que estou querendo dizer, farei uso de uma analogia futebolística:

Imaginem que a Federação Paulista de Futebol tem em sua sede administrativa vários emblemas da Sociedade Esportiva Palmeiras. Sendo eu hipoteticamente o presidente do humilde Clube Atlético Juventus, como poderia confiar em uma instituição que tem por obrigação garantir a isenta manutenção do campeonato estadual, com toda sua estrutura de arrecadação de verbas, marketing, juízes, mídia, tabela, dentre outros elementos, uma vez que sua sede está cheia de emblemas do Palmeiras? Ou a Federação assume isenção total retirando todos os emblemas do Palmeiras ou ela incorpora de forma absolutamente justa os emblemas dos outros times participantes, todos na mesma quantidade.

E é exatamente isso o que está ocorrendo em nossas repartições públicas. Não podemos confiar em um Estado que se diz laico e, ao mesmo tempo, ostenta crucifixos nas paredes de suas repartições. Muito menos ainda, em uma juíza que toma uma decisão desse tipo sendo que deveria, por concepção primária de seu cargo, ser isenta em suas decisões. Ou permite-se que todas as religiões sejam representadas nos órgãos públicos ou proibi-se a utilização de qualquer simbologia, ainda que seja da religião com maior representatividade do país.

São decisões como esta, somadas as recentes declarações do nosso "amado" presidente Lula, o qual comentou em discurso a líderes da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro que chegou ao seu cargo por obra divina (pasmem!), que confirmam minhas suspeitas de que estamos caminhando a passos largos para uma Segunda Idade Média. Para maiores informações sobre essa sombria teoria, leiam os posts “Brasil: Futuro País Teocrático?”, “Evangelização”, “Liberdade!?!?” e “Segunda Idade das Trevas” com seus devidos comentários. Vejam também o blog "Pensamento em Extinção" do Roni Adame, o qual também tem explorado esta questão em suas postagens.

Abs:

Marcio

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Diploma de Idiota

Ao ter acesso à notícia da investigação do Minsitério Público Estadual contra a Igreja Universal do Reino de Deus, a qual denuncia o bispo Edir Macedo e mais 9 pessoas por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro eu não fiquei nada surpreso. Confesso que os número envolvidos (a Igreja movimenta R$ 1,4 bilhão por ano no Brasil, dinheiro arrecadado por meio do pagamento de dízimo por seus milhares de fiéis espalhados por 4.500 templos, instalados em 1.500 cidades do País) me assustaram muito mas, o teor da notícia em si não foi novidade para mim, haja visto todo o histórico envolvendo Edir Macedo e sua Igreja. Todavia, ao ter acesso ao UOL Notícias, uma foto deixou-me realmente perplexo. Trata-se da fotografia de um “Diploma do Dizimista”, documento oferecido àqueles que se prestam a doar o famoso dízimo na Universal. Nunca soube nada sobre tal documento e, ao tomar consciência da barbaridade, não pude deixar de comentar.

O texto do “Diploma do Dizimista” é um trecho bíblico que se refere ao Deus Yaveh ou Jeová do antigo testamento. E para coroar o surrealismo do documento oficial da Igreja existe a patética “assinatura de Jesus” (pasmen!) ao lado da assinatura da vítima do engôdo... É isso mesmo! Um documento oficial assinado por Jesus! Aliás, assinatura por demais tosca, parecendo de uma criança de 8 anos em aula de caligrafia! Rs... Desculpem-me mas, em que pese aqui a característica totalmente caricata e risível do documento, eu gostatria de ressaltar seriamente alguns pontos. Para começar, o texto refere-se, como eu disse, a um trecho bíblico que não tem nada a ver com Jesus. Trata-se do tirano Deus Yaveh do velho testamento que não tem qualquer relação com aquilo que é pregado sobre o “Deus de Jesus”, o qual seria um “Deus de Amor”. Tanto é que no documento fala-se sobre “Senhor dos Exércitos”, termo mais do que esclarecedor sobre a natureza violenta e sanguinária do Deus do velho testamento. E depois, caracterizando aí o crime de falsidade ideológica, existe uma assinatura de Jesus para dar mais “credibilidade” ao texto que não tem nada a ver com o que Jesus supostamente teria pregado. Além disso, existe um outro detalhe surreal na assinatura, que é precedida pelo pronome de tratamento “Senhor”. Ora, vamos combinar que alguém que refere-se a si próprio numa assinatura como “Sr.” só pode ser considerado como uma pessoa muito metida à besta. Falando-se de Jesus então, a esperada humildade por parte daquele que é tido como “ícone ocidental da simplicidade” passou muito longe! Rs... só rindo mesmo.

Por último, é importante lembrar ainda que, se Jesus fosse de fato assinar alguma coisa, nunca seria “Jesus Cristo”, haja visto que seu nome original nunca foi esse. Esse nome foi resultado da criação de Saulo ou Paulo. O nome em Aramaico, língua nativa da época e local onde Jesus teria vivido, seria “Yehoshua” ou “Yeshua”. Bom, não é do meu interesse entrar a fundo no mérito da etimologia do nome, deixando isso para aqueles que tiverem um pouco de curiosidade pela História do Cristianismo. Quem estiver disposto, vai se surpreender com a capacidade humana de deturpar tudo ao longo do tempo. Mas eu sei que a esmagadora maioria das pessoas não fará pesquisa alguma. Afinal, pesquisar dá muito trabalho...

Em resumo, fica aqui a indignação contra essa Igreja Universal e sua capacidade de estragar as pessoas, levando os fiéis a acreditarem nas coisas mais estúpidas para obter lucro à qualquer custo (1,4 bilhão de reais por ano está bom, não está?). Se as pessoas chegam ao cúmulo de assinar um documento como esse, não seria de todo impossível que as mesmas passassem a matar em nome de Deus. Seria o resultado mais perplexo possível de uma poderosa lavagem cerebral, a qual leva o fiel a abdicar totalmente da sua intrasferível capacidade de pensar por conta própria.

E para aqueles que assinaram tal documento eu parabenizo pela honrada conquista de um Diploma de Idiota!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Brasil: Futuro País Teocrático?

Mais uma bomba do site de notícias G1: "Lei obrigará deputados da Paraíba a 'refletir' sobre a Bíblia antes das sessões". Agora sim! Nossos políticos finalmente tomarão vergonha na cara!

O deputado Nivaldo Manoel (PPS) acredita que “a palavra de Deus ajudará a melhorar os ânimos” dos colegas da Assembléia Legislativa da Paraíba para enfrentar os problemas no plenário. O deputado calcula que serão usados sete minutos de cada sessão para leitura e reflexão sobre a Bíblia - feitos por ele mesmo - assim que o projeto, aprovado por unanimidade, for publicado no “Diário Oficial” da Casa. Neste tempo, afirma, os deputados “permanecerão da forma que eles quiserem”, mas pedirá silêncio. Segue ainda dizendo: “Sou evangélico de uma igreja como a Assembleia de Deus, muito rígida, de mais titularidade à obediência da Bíblia. [...] Tenho essa vantagem e a coragem de fazer isso. E vou fazer em nome de Jesus essa reflexão pregando a palavra sem nenhum constrangimento, como se estivesse no púlpito de uma igreja”, afirma o deputado, que disse não ser pastor. Como se não bastasse a cegueira e fanatismo local, o deputado acredita que a reflexão poderia ser adotada também no Senado Federal, como forma de melhorar “a atitude dos parlamentares”.

Muito humilde, relevante e sensata a iniciativa do nobre candidato! Que postura mais prepotente, partindo-se do princípio de que sua visão deve ser aplicada a todos os seus colegas, sem o menor vestígio de suspeita de que seu paradigma é extremamente limitado e totalmente inútil no contexto do seu trabalho. É esse tipo de postura que nós queremos ver disseminada nas esferas públicas das instituições do nosso país? O que está realmente acontecendo?


Infelizmente, a cada nova notícia, são confirmadas aqui as minhas suspeitas ao longo dos meus posts de que estamos caminhando para uma Segunda Idade das Trevas. Um mundo muito mais religioso e, portanto, menos racional está surgindo com consequências imprevisíveis para a raça humana. Posts como "Segunda Idade das Trevas", "Atentado à Razão", "Liberdade!?!?!" e "Evangelização" resvalam, de uma forma ou de outra, nesta triste previsão e, embora eu tenha concentrado minhas críticas sobre as pistas desta tendência no Brasil, sabemos que trata-se de um fenômeno internacional.

Os domínios políticos do nosso país já se encontram abarrotados por representantes de instituições religiosas, na esmagadora maioria de natureza cristã, fazendo o seu nada religioso lobby com o intuito de aumentar o nível de poder de suas Igrejas. Mas isso ainda parece ser pouco para essas pessoas. Parece não haver limites para o ridículo nem tampouco bom senso para elas, com propostas absurdas como a que vimos acima que estão longe de trazer alguma contribuição real para os interesses da nossa sociedade. E ninguém faz absolutamente nada para deter a escalada do cristianismo pelos meandros das instituições públicas deste país. Pelo fato do tema envolver “religião”, concepção sobre a qual fomos treinados desde a mais tenra idade a “respeitar” por ser “algo sagrado”, os não-crentes acabam sendo coniventes com o crescente poder do cristianismo sobre o estado. Esse maldito "receio de dizer não" à influência religiosa é fruto de uma lavagem cerebral muito bem articulada desde nossa infância, e o Brasil, cada vez mais, vai perdendo suas características de país laico. Sinais disto podem ser observados na introdução do ensino religioso de forma tendenciosa e prática nas escolas públicas, nas autoriddes religiosas aparecendo cada vez mais em eventos públicos e na mídia de massa, nas orações coletivas em partidas de futebol televisionadas, no crescente debate sobre a censura da Internet nos períodos de eleição e, a esta altura, não é difícil uma lei absurda como a que vimos acima chegar a ser aprovada na esfera do Senado Federal, com consequências assombrosas nas tomadas de decisão mais importantes para a nossa sociedade.

Um estado religioso é por definição um estado tendencioso e irracional. O Regime Teocrático é um sistema de governo no qual a máxima autoridade política é exercida por pessoas que se consideram representantes de Deus na Terra. Nas Teocracias, o governante tem ao mesmo tempo o poder político e religioso e, pelo fato de se achar legítimo representante da vontade de Deus (sendo isso, obviamente, uma premissa monstruosamente questionável por razões que eu nem citarei aqui por falta de espaço) o país sob tal comando fica a mercê da total arbitrariedade religiosa de um pessoa ou de um grupo restrito de pessoas. Mas isso está longe de acontecer aqui no Brasil, certo? Essa é justamente a minha esperança pois, deixar de ser um país laico (condição oficialmente respaldada pela constituição) para, mesmo que muito improvavelmente, virar um Estado Teocrático só vai agravar muito a nossa já difícil situação.

Sei que muitos irão dizer que estou sendo demasiadamente exagerado em meus alertas e espero honestamente que eu esteja redondamente enganado. Mas não posso deixar de ser uma voz de alerta, mesmo correndo o risco de ser exagerado e repetitivo, naquilo que parece ser uma multidão silenciosa de conivência ou talvez até covardia perante os avanços da religiosidade em todas as esferas da nossa sociedade. A crescente necessidade de manifestação pública, o ímpeto de se levantar uma bandeira, a escalada da evangelização via mídia de massa, a proliferação de Igrejas com públicos-alvo bem definidos e agora a "exportação de Igrejas" para outros países (vide o caso surreal da esposa do Kaká no
site de notícias do BOL) são sinais de um avanço cada vez mais ousado, meticuloso e perigosamente ambicioso do cristianismo em suas mais diferentes formas.

Abs:
Marcio

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Deus é Gente (parte 2)


Dando sequência ao tema do post "Deus é Gente", eu proponho um exercício mental, uma especulação com o intuito de salientar as falhas presentes no texto cristão do referido post, partindo-se da premissa de que Deus realmente existe. Vamos lá então...

A concepção de um Deus personificado (a idealização de um Deus à nossa imagem e semelhança), pode levar-nos ao encontro de muitas armadilhas típicas do contexto da tradição religiosa. Para começar, é extremamente comum a associação de Deus com o conceito de bem e sua oposição na forma personificada do diabo com o conceito de mal. Mas a análise um pouco mais detalhada desta visão maniqueísta pode revelar- nos certas concepções falhas e desprovidas de um embasamento mais profundo. Para as filosofias orientais em geral, por exemplo, o bem é considerado como o equilíbrio entre forças opostas ao passo que o mal é comumente encarado como desequlíbrio entre os extremos, tal qual é observado na relação entre os opostos presente na filosofia taoista. Assim, começamos a ver que interpretar os mecanismos da vida através da eterna luta entre bem e mal é uma atitude bastante simplista.

Se considerarmos a idéia de que Lúcifer foi um anjo caído que se rebelou contra Deus, constituindo a partir daí a síntese de todo o mal somos obrigados a aceitar que o Criador desconhecia por completo as intenções de sua obra, sendo portanto limitado e falho. Neste caso, Deus seria ignorante e alienado pois desconheceria a sequência de atitudes tomadas pela sua criação insubordinada, demonstrando a evidente fraqueza da força criadora além de um débil poder de planejamento e previsão. Por conseguinte, Deus não poderia ser onipotente, onipresente e onisciente, sendo apenas uma divindade irresponsável num eterno processo de tentativa e erro para poder aprender através da observação da imperfeição de sua própria obra. Dentro desta abordagem, Deus atuaria sobre a criação efetuando “remendos” à medida que fosse verificando as falhas cometidas no desenrolar da vida prática. Contudo, se pensarmos que Deus é realmente onipotente, onipresente e onisciente, tal poder deve necessariamente englobar tudo o que existe, sendo ao mesmo tempo a síntese do bem e do mal. Acreditar no mal como sendo uma fatalidade cósmica apartada do próprio Criador constitui uma mentalidade ingênua e parcial, uma vez que desconsidera automaticamente que Deus seria a origem de absolutamente tudo. Bem e mal deveriam representar necessariamente os dois lados de uma mesma moeda, sendo inútil perpetuar o conflito entre as aparentes oposições.

Mas se fizermos um pequeno esforço, logo veremos que pensar na vida em termos de bem e mal continua a ser uma atitude simplista, mesmo no caso de considerarmos tal dicotomia como eventos oriundos de uma mesma força criadora. Seria mais sensato especular sobre a existência de uma ignorância absoluta e de uma sabedoria absoluta em uma escala evolutiva hipotética. A concepção de mal seria então substituída pela idéia de ignorância, ao passo que o bem seria substituído pela idéia de sabedoria. Deste modo, ainda teríamos uma relação entre opostos mas de uma forma muito mais realista pois passaríamos a encarar nossa caminhada como um processo de evolução e aprendizado constantes, ao longo do qual o ponto de partida seria a ignorância absoluta, o ponto de chegada seria a sabedoria absoluta e entre os dois extremos haveria uma infinidade de diferentes níveis tão amplos quanto o próprio universo. A ignorância estaria relacionada com o básico, o rudimentar, o primitivo (aqui, na acepção mais negativa da palavra), ou seja, a ação e/ou reação simplista, egoísta, limitada, alienada e destrutiva frente à vida. A sabedoria, por sua vez, estaria relacionada com o aprendizado, o conhecimento e a complexidade, constituindo a ação e/ou reação de caráter consciente, altruísta, construtiva e abrangente frente à vida. Em termos evolutivos, portanto, ficaria fácil notar que a ignorância levaria à rigidez e à extinção, ao passo que a sabedoria levaria à adaptação e à continuidade. Por este princípio, portanto, não seria possível ser sábio sem ter sido previamente ignorante, caminho este em que todos nós nos encontramos ainda muito mais próximos do início (ignorância) do que do fim (sabedoria), haja visto a humilde e honesta análise do nosso momento enquanto sociedade.

A inflexibilidade como sinal de ignorância permanece escondida em nossas atitudes diárias tais quais a falsa idéia de fraqueza ao reconhecermos nossos próprios erros, a falta de arrependimento em relação às coisas efetuadas no passado e a perspectiva orgulhosa de que uma pessoa de caráter nunca deve mudar os seus pontos de vista. Aliás, sob tais aspectos, é extremamente comum observarmos as pessoas afirmando cheias de confiança coisas do tipo: “eu sou assim mesmo e não vou mudar” ou “quem quiser, que me aceite do jeito que eu sou” e assim por diante. Pois bem, infelizmente tais afirmações são apenas uma desculpa para um comportamento que no fundo as pessoas sabem não ser o mais adequado. Na falta de argumentos realistas a saída mais fácil é dizer “eu sou assim mesmo” e continuar a fazer as coisas do mesmo modo sem qualquer preocupação com a revisão das nossas próprias atitudes. Um comportamento deste tipo é ausente de qualquer senso de responsabilidade e remete-se sempre a uma crença de que a vida não pode ser mudada por diferentes motivos. Além de ser mais cômodo pensar dessa forma, tal comportamento pode estar sendo influenciado por uma crença filosófica ou mesmo religiosa que desconsidera a visão da vida em termos de aprendizagem, mudança e evolução. Tais constatações, dentre infinitas outras, revelam que estamos muito mais próximos da ignorância do que da sabedoria, já que geralmente não estamos interessados em estabelecer uma visão ampla e crítica a respeito de nós mesmos. Por consequência, a falta de revisão de nossos pensamentos e atitudes eliminam a nossa possibilidade de adaptação ao meio, ou seja, a mudança com o intuito de darmos continuidade às nossas vidas pelos nossos próprios meios e não uma desejável mudança instaurada pela misericórdia dos deuses. De qualquer maneira, a concepção envolvendo uma linha evolutiva hipotética entre ignorância e sabedoria absolutas dispensaria o comportamento muito cômodo de atribuir a causa de nossos erros a um poder externo, individualizado e independente de Deus (o diabo ou o mal personificado), o qual seria o total responsável pelas mazelas do mundo. Assim, veríamos que o diabo nada mais é do que o “bode- expiatório” (perdoem-me pelo trocadilho) criado pela mente humana para gerar medo e atrair os crédulos para a salvaguarda da religião, aquela instituição considerada como o único caminho válido para a redenção.

A idéia de bem e mal e a luta entre forças opostas não é uma concepção exclusiva do cânone cristão mas fica evidente que foi no seio do Cristianismo em que tais idéias acabaram ganhando maior notoriedade no mundo ocidental. Na Europa da Idade Média, por exemplo, as religiões tidas como pagãs foram violentamente perseguidas pela Santa Inquisição e como era comum na época o culto aos elementos da natureza (a fauna e a flora) por parte das religiões locais, atribuir a imagem de um bode à idéia de um ser malévolo acabou servindo aos interesses da Igreja de fazer um marketing negativo sobre tais crenças e atrair mais seguidores (vide a figura do Deus grego Pan: metade homem, metade bode). Em pouco tempo, estava consolidada a imagem de que as pessoas envolvidas com tais crenças não passavam de bruxas ou feiticeiros macomunados com Satanás e sua horda de anjos negros. A partir daí, seria progressivamente instaurada a mais bárbara perseguição com o intuito de “limpar” da face da Terra todos os hereges e ímpios perante os olhos do alto clero. E o mundo, desde então, nunca mais foi o mesmo.

A abolição da crença na reencarnação (sim, o Cristianismo primitivo aceitava essa idéia) e a subseqüente criação de um julgamento divino após a morte com o intuito de recompensar ou punir nossos atos foi uma estratégia extremamente conveniente para a Igreja, obrigando os fiéis a aceitarem o mais rápido possível a concepção de que o Cristianismo seria a única tábua de salvação sobre a Terra. Haveria então apenas uma única vida (e não inúmeras experiências de aprendizado) a ser desfrutada de forma condizente com os princípios estabelecidos pela Igreja, pois qualquer outro estilo de vida estaria em desacordo com as leis de Deus, merecendo assim os mais horrendos castigos no macabro reino de Lúcifer. E não demorou muito para a ameaça pela imposição do medo servir aos objetivos propostos, explorando os fiéis que, na maioria dos casos, davam o pouco que tinham para terem os seus lugares reservados ao lado do trono Deus. A ameaça representada pela imagem do inferno passou então a constituir uma temida punição por parte dos fiéis ao mesmo tempo em que era muito conveniente para os interesses da Igreja. Desde então, passamos a herdar a imagem de um Deus que se impõe através do medo e da ameaça, aproveitando a concepção prévia do Deus com características humanas do Velho Testamento para aperfeiçoar todo o sistema de castigos e recompensas através da implementação do Novo Testamento. De todos os sistemas opressores que herdamos do passado, a concepção personificada de Deus que muitos ainda carregam, mesmo de uma forma inconsciente, é um dos males mais difíceis de serem eliminados do pensamento humano.

Abs:
Marcio