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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Brasil Abre as Pernas Para o Vaticano

Eu estava errado ao mencionar ao longo de vários posts neste blog que estávamos caminhando rapidamente para uma Segunda Idade das Trevas. Na verdade, a Segunda Idade das Trevas pode estar já começando! O Brasil está prestes a deixar de ser oficialmente (extra-oficialmente nunca foi) um país laico! A Câmara dos deputados aprovou no último dia 26 o texto base da ratificação do acordo entre Brasil-Vaticano, o qual foi propositalmente mantido em segredo pelo nosso querido presidente Lula, sem dar qualquer satisfação ou submeter a sociedade brasileira à um referendo popular (não é de hoje que eu sinto cheiro de ditadura no ar). Uma pesquisa do IBOPE encomendada pelo grupo “Católicas pelo Direito de Decidir” mostra que 78% dos entrevistados são contrários ao acordo entre Brasil e a Santa Sé. Na pesquisa, até os católicos mostraram-se contra (pasmem!).

O acordo foi assinado no final do ano passado pelo presidente e o Papa Bento XVI em uma solenidade a portas fechadas. O texto apresenta um teor retrógrado sem tamanho, colocando nosso país na mesma situação da determinação republicana do final do século 19, a qual separou as instâncias entre Igreja e Estado. E isso é só o começo do retrocesso. Podemos recuar ainda mais...

O acordo garante uma série de altos privilégios para a Igreja Católica, tais como isenções fiscais para rendas e patrimônios de pessoas jurídicas eclesiásticas, manutenção, com recursos públicos, do patrimônio cultural da Igreja Católica como prédios, acervos, documentos etc., assistência espiritual aos fiéis internados em estabelecimentos de saúde, de assistência social, de educação ou similar, ou detidos em estabelecimento prisional ou similar e por aí vai. Além disso, o ensino religioso nas escolas públicas (o qual, do jeito como está, já é um absurdo inaceitável) vai ficar ainda mais abominável com o aumento das garantias da Igreja Católica de manutenção das aulas de religião. Isso abre terreno para a evangelização e doutrinamento de nossas crianças por um modelo estigmatizante e padronizado. A visão de mundo dos nossos jovens, já tão estreita em parte pela influência do Cristianismo, ficará muito pior pelo estabelecimento do Catolicismo no topo da hierarquia religiosa nacional, apoiada pelo próprio poder do Estado. Por conta desse agravamento do modelo educacional público através da interveção da Santa Sé, é oportuno divulgar o depoimento de uma professora do Estado do Rio de Janeiro, a qual comentou que o Estado laico, na verdade, já está morto:

“Nas escolas municipais do Rio foram interrompidas as aulas de educação sexual [em que se ensinava sobre DSTs, fecundação…] para dar lugar ao ensino religioso, por segmentos católicos e pentecostais que são contra a descriminalização do aborto e pregam a abstinência sexual antes do casamento. Esta lei foi sancionada pelo governo Rosinha Garotinho. Também nas universidades o movimento conservador avança muito. Na Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense testemunhei que, ao meio dia, funcionários vão para um culto religioso” (fonte: blog "Mulheres de Olho").

Se o negócio já está neste nível (confesso que fiquei embasbacado quando li), com que intuito o governo fez um “acordo na surdina” para piorar ainda mais, dando poderes à uma religião em particular e com isso gerando mais ódio e repúdio por parte das religiões menos representativas? E outra: quem perguntou se eu quero que os altíssimos impostos que eu pago sejam revertidos na manutenção e proliferação da Igreja? Isso é um atentado à minha liberdade! É dízimo imposto pelo governo! Não posso ser conivente com tamanho absurdo!

É meus amigos... Isso só vai piorar muito as coisas de agora em diante. Minhas previsões não estavam equivocadas em relação ao seu conteúdo e sim em relação ao tempo que demoraria para elas se concretizarem. Além de uma sociedade menos racional agora somos testemunhas de um governo menos racional e mais religioso. Isso, não pode acabar bem. Como ficarão os os ateus e os agnósticos diante de um governo mais religioso? Como ficarão os budistas, muçulmanos, umbantistas e hinduístas? Como ficarão os evangélicos, como a religião que mais ganha espaço em nosso país, diante de privilégios jurídicos que o governo intenciona dar ao Vaticano? Seremos um país mais ecumênico e pacífico por conta dessa arbitrária decisão do Estado em defender uma religião específica? Podem ter certeza que não...

A religião existe desde que o mundo é mundo e nem por isso o ser humano deixou de ser mais violento, tirano, manipulador e ignorante; muito pelo contrário, a religião sempre foi fonte de revolta, conflitos, violência, opressão e guerras. O velho chavão de que uma sociedade mais religiosa significa uma sociedade mais pacífica nunca esteve tão absurdamente voltado de costas para um mundo melhor. Não se garante liberdade religiosa fazendo acordos com uma religião específica. Historicamente, sabemos que isso sempre deu muito errado...

Boa sorte a todos:

Marcio

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Mais Uma Vitória do Cristianismo

“A juíza da 3ª Vara Cível Federal de São Paulo, Maria Lúcia Lencastre Ursaia, determinou que os símbolos religiosos (crucifixos, imagens, entre outros) poderão permanecer nos órgãos públicos. A decisão liminar da juíza indeferiu o pedido do Ministério Público Federal (MPF) para a retirada dos símbolos dos prédios públicos. A ação teve início com a representação do cidadão Daniel Sottomaior Pereira, que teria se sentido ofendido com a presença de um crucifixo num órgão público.

No pedido feito dia 31 de julho, o MPF entendeu que a foto do crucifixo apresentada pelo autor desrespeitava o princípio da laicidade do Estado, da liberdade de crença, da isonomia, bem como ao princípio da impessoabilidade da administração pública e imparcialidade do Poder Judiciário. Porém, a juíza entendeu que não ocorreram ofensas à liberdade de escolha de religião, de adesão ou não a qualquer seita religiosa nem à liberdade de culto e de organização religiosa, pois são garantias previstas na Constituição.

Para a magistrada, o Estado laico não deve ser entendido como uma instituição antireligiosa ou anticlerical. "O Estado laico foi a primeira organização política que garantiu a liberdade religiosa. A liberdade de crença, de culto e a tolerância religiosa foram aceitas graças ao Estado laico e não como oposição a ele. Assim sendo, a laicidade não pode se expressar na eliminação dos símbolos religiosos, mas na tolerância aos mesmos", afirmou ela, na decisão.” (fonte: site do Estadão).

De acordo com o texto acima, a interpretação da juiza Maria Lúcia Lencastre Ursaia, infelizmente, não tem nada de justo, isento ou laico. É um julgamento tendencioso, justamente por ser garantido na constituição que o Estado deve ser isento de qualquer manifestação religiosa. Deve, mas está longe de ser... A juíza está certa quando argumenta que o Estado laico garante a liberdade religiosa. Todavia, não há como garantir tal liberdade permitindo que o próprio Estado tome partido na “defesa velada” desta ou daquela religião (a liberdade de uso da máquina do Estado para a divulgação religiosa só vale para o Cristianismo?). Sendo o papel do Estado o de mantenedor da liberdade religiosa para todos os brasileiros (com a desejada atenção especial às minorias), este não pode ser conivente com a manifestação aberta de qualquer religião dentro da sua própria estrutura, ainda mais com o agravante de ser uma conivência em favor da religião mais influente do país. A tolerância mencionada por ela deveria considerar como prioridade as religiões menos representativas, as quais simplesmente não possuem voz em uma sociedade predominantemente cristã. Para esclarecer um pouco mais o que estou querendo dizer, farei uso de uma analogia futebolística:

Imaginem que a Federação Paulista de Futebol tem em sua sede administrativa vários emblemas da Sociedade Esportiva Palmeiras. Sendo eu hipoteticamente o presidente do humilde Clube Atlético Juventus, como poderia confiar em uma instituição que tem por obrigação garantir a isenta manutenção do campeonato estadual, com toda sua estrutura de arrecadação de verbas, marketing, juízes, mídia, tabela, dentre outros elementos, uma vez que sua sede está cheia de emblemas do Palmeiras? Ou a Federação assume isenção total retirando todos os emblemas do Palmeiras ou ela incorpora de forma absolutamente justa os emblemas dos outros times participantes, todos na mesma quantidade.

E é exatamente isso o que está ocorrendo em nossas repartições públicas. Não podemos confiar em um Estado que se diz laico e, ao mesmo tempo, ostenta crucifixos nas paredes de suas repartições. Muito menos ainda, em uma juíza que toma uma decisão desse tipo sendo que deveria, por concepção primária de seu cargo, ser isenta em suas decisões. Ou permite-se que todas as religiões sejam representadas nos órgãos públicos ou proibi-se a utilização de qualquer simbologia, ainda que seja da religião com maior representatividade do país.

São decisões como esta, somadas as recentes declarações do nosso "amado" presidente Lula, o qual comentou em discurso a líderes da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro que chegou ao seu cargo por obra divina (pasmem!), que confirmam minhas suspeitas de que estamos caminhando a passos largos para uma Segunda Idade Média. Para maiores informações sobre essa sombria teoria, leiam os posts “Brasil: Futuro País Teocrático?”, “Evangelização”, “Liberdade!?!?” e “Segunda Idade das Trevas” com seus devidos comentários. Vejam também o blog "Pensamento em Extinção" do Roni Adame, o qual também tem explorado esta questão em suas postagens.

Abs:

Marcio

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Brasil: Futuro País Teocrático?

Mais uma bomba do site de notícias G1: "Lei obrigará deputados da Paraíba a 'refletir' sobre a Bíblia antes das sessões". Agora sim! Nossos políticos finalmente tomarão vergonha na cara!

O deputado Nivaldo Manoel (PPS) acredita que “a palavra de Deus ajudará a melhorar os ânimos” dos colegas da Assembléia Legislativa da Paraíba para enfrentar os problemas no plenário. O deputado calcula que serão usados sete minutos de cada sessão para leitura e reflexão sobre a Bíblia - feitos por ele mesmo - assim que o projeto, aprovado por unanimidade, for publicado no “Diário Oficial” da Casa. Neste tempo, afirma, os deputados “permanecerão da forma que eles quiserem”, mas pedirá silêncio. Segue ainda dizendo: “Sou evangélico de uma igreja como a Assembleia de Deus, muito rígida, de mais titularidade à obediência da Bíblia. [...] Tenho essa vantagem e a coragem de fazer isso. E vou fazer em nome de Jesus essa reflexão pregando a palavra sem nenhum constrangimento, como se estivesse no púlpito de uma igreja”, afirma o deputado, que disse não ser pastor. Como se não bastasse a cegueira e fanatismo local, o deputado acredita que a reflexão poderia ser adotada também no Senado Federal, como forma de melhorar “a atitude dos parlamentares”.

Muito humilde, relevante e sensata a iniciativa do nobre candidato! Que postura mais prepotente, partindo-se do princípio de que sua visão deve ser aplicada a todos os seus colegas, sem o menor vestígio de suspeita de que seu paradigma é extremamente limitado e totalmente inútil no contexto do seu trabalho. É esse tipo de postura que nós queremos ver disseminada nas esferas públicas das instituições do nosso país? O que está realmente acontecendo?


Infelizmente, a cada nova notícia, são confirmadas aqui as minhas suspeitas ao longo dos meus posts de que estamos caminhando para uma Segunda Idade das Trevas. Um mundo muito mais religioso e, portanto, menos racional está surgindo com consequências imprevisíveis para a raça humana. Posts como "Segunda Idade das Trevas", "Atentado à Razão", "Liberdade!?!?!" e "Evangelização" resvalam, de uma forma ou de outra, nesta triste previsão e, embora eu tenha concentrado minhas críticas sobre as pistas desta tendência no Brasil, sabemos que trata-se de um fenômeno internacional.

Os domínios políticos do nosso país já se encontram abarrotados por representantes de instituições religiosas, na esmagadora maioria de natureza cristã, fazendo o seu nada religioso lobby com o intuito de aumentar o nível de poder de suas Igrejas. Mas isso ainda parece ser pouco para essas pessoas. Parece não haver limites para o ridículo nem tampouco bom senso para elas, com propostas absurdas como a que vimos acima que estão longe de trazer alguma contribuição real para os interesses da nossa sociedade. E ninguém faz absolutamente nada para deter a escalada do cristianismo pelos meandros das instituições públicas deste país. Pelo fato do tema envolver “religião”, concepção sobre a qual fomos treinados desde a mais tenra idade a “respeitar” por ser “algo sagrado”, os não-crentes acabam sendo coniventes com o crescente poder do cristianismo sobre o estado. Esse maldito "receio de dizer não" à influência religiosa é fruto de uma lavagem cerebral muito bem articulada desde nossa infância, e o Brasil, cada vez mais, vai perdendo suas características de país laico. Sinais disto podem ser observados na introdução do ensino religioso de forma tendenciosa e prática nas escolas públicas, nas autoriddes religiosas aparecendo cada vez mais em eventos públicos e na mídia de massa, nas orações coletivas em partidas de futebol televisionadas, no crescente debate sobre a censura da Internet nos períodos de eleição e, a esta altura, não é difícil uma lei absurda como a que vimos acima chegar a ser aprovada na esfera do Senado Federal, com consequências assombrosas nas tomadas de decisão mais importantes para a nossa sociedade.

Um estado religioso é por definição um estado tendencioso e irracional. O Regime Teocrático é um sistema de governo no qual a máxima autoridade política é exercida por pessoas que se consideram representantes de Deus na Terra. Nas Teocracias, o governante tem ao mesmo tempo o poder político e religioso e, pelo fato de se achar legítimo representante da vontade de Deus (sendo isso, obviamente, uma premissa monstruosamente questionável por razões que eu nem citarei aqui por falta de espaço) o país sob tal comando fica a mercê da total arbitrariedade religiosa de um pessoa ou de um grupo restrito de pessoas. Mas isso está longe de acontecer aqui no Brasil, certo? Essa é justamente a minha esperança pois, deixar de ser um país laico (condição oficialmente respaldada pela constituição) para, mesmo que muito improvavelmente, virar um Estado Teocrático só vai agravar muito a nossa já difícil situação.

Sei que muitos irão dizer que estou sendo demasiadamente exagerado em meus alertas e espero honestamente que eu esteja redondamente enganado. Mas não posso deixar de ser uma voz de alerta, mesmo correndo o risco de ser exagerado e repetitivo, naquilo que parece ser uma multidão silenciosa de conivência ou talvez até covardia perante os avanços da religiosidade em todas as esferas da nossa sociedade. A crescente necessidade de manifestação pública, o ímpeto de se levantar uma bandeira, a escalada da evangelização via mídia de massa, a proliferação de Igrejas com públicos-alvo bem definidos e agora a "exportação de Igrejas" para outros países (vide o caso surreal da esposa do Kaká no
site de notícias do BOL) são sinais de um avanço cada vez mais ousado, meticuloso e perigosamente ambicioso do cristianismo em suas mais diferentes formas.

Abs:
Marcio

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Cadê a Rebeldia?

Lembro-me do período do colegial, época que ficou marcada pela expressão máxima da minha revolta, rebeldia típica de um adolescente de classe média. Lembro-me das "diretas já", das greves dos sindicatos, do PT ainda como partido de esquerda atuante e de uma classe estudantil mais politizada. Era normal ouvir músicas diferentes com letras desafiadoras, questionar o sistema, indagar os professores, protestar contra os políticos, questionar as tradições, enfim, era normal "ser do contra".

Hoje, vejo um cenário completamente diferente. Vejo os jovens muito mais complacentes, muito mais integrados ao sistema, muito mais conformados com as tradições, frequentando missas e participando ativamente de eventos religiosos. Ou seja, a tradição parece ter vencido e uma horrível sensação de que tudo está resolvido ou de que não há mais nada a ser feito parece fazer parte do cotidiano dos adolescentes contemporâneos. No geral, vejo uma juventude continuista, pouco criativa, pouco inovadora, conformada e ajustada à corrente predominante da nossa sociedade, mais do que em qualquer outra época.

O que está acontecendo? Cadê a rebeldia típica dos anos 60, 70, 80 e 90? Lógico que, se considerarmos cada época, é mais do que certo constatar que o "nível de rebeldia" foi sofrendo uma redução ao longo dos anos, fator que eu já considero por si só perigoso. Mas agora, eu não posso considerar como simplesmente normal o desaparecimento dos traços de rebeldia em nossos jovens, sendo a adolescência um período tão crucial em nossas vidas em termos de formação.

É óbvio que estou generalizando. Estou ciente de que há grandes exceções em nossa juventude mas, no geral, percebo a predominância do "encaixe no sistema" e me preocupa muito quando ouço alguns intelectuais alegando que não existem mais ideologias, portanto, os jovens não teriam como lutar por nenhuma causa que justificasse o comportamento rebelde. Embora eu reconheça que há uma ausência de ideologias da forma que testemunhamos nos anos 60 e 70, não posso concordar que isso poderia justificar o "comportamento bovino" dos jovens atuais. Quer dizer então que, se não há mais ideologias, está tudo certo? Não existe mais nenhuma razão para lutar? Nenhuma forma de mudar a situação? A vida é assim mesmo e ponto final?

Na verdade, a interpretação dos intelectuais revela um problema subjacente que pode estar por trás do comportamento complacente dos jovens: não há mais uma percepção de problema. Há hoje uma grave crise de percepção, de uma forma que os problemas são banalizados e fazem parte da estrutura de um modelo "eternizado" de sociedade. Ou seja, o problema nem é mais visto como tal e sim como parte intrínseca do "sistema de engrenagens" do cotidiano, o qual é aceito e assimilado desta forma, sem qualquer traço de suspeita de que as coisas poderiam ser diferentes. Essa falta de percepção deve-se, pelo menos em parte, ao nosso falido sistema de educação, o qual não só retirou a filosofia do ensino médio (ainda na época da ditadura) como, por outro lado, introduziu o ensino religioso nas escolas (retrocesso mais recente). Como a idéia central da filosofia é ensinar as pessoas a pensar (este pelo menos deveria ser o enfoque da disciplina no nível básico de educação), foi muito conveniente para a ditadura retirar essa matéria das escolas.

A filosofia é uma disciplina importante para a nossa formação. Para quem não sabe, o pensamento filosófico constitui uma visão lógica e crítica da realidade que surgiu como sistema de oposição aos preceitos religiosos já por volta do século V a.c. Aparecendo inicialmente na Antiga Índia e pouco tempo depois na sociedade grega, a filosofia revelou os primórdios do pensamento independente da religião com o objetivo de preencher a lacuna deixada pela queda gradual da credibilidade das crenças e dos mitos. E foi na Antiga Grécia, mais precisamente, que floresceu a filosofia cuja influência dominou a formação do pensamento científico e da visão de mundo ocidental.

O Brasil, todavia, conhecido por ser um país predominantemente cristão (89% da população), carrega uma história pouco aderente à formação e desenvolvimento de uma filosofia nacional. A própria influência da Igreja na cultura brasileira encarregou-se de abafar a necessidade de um pensamento crítico da realidade, considerando a influência do dogma cristão sobre o molde do pensamento do povo brasileiro. A visão crítica da realidade independente da influência da religião sempre foi um fenômeno atrelado à classe intelectual brasileira, a qual teve acesso a uma educação de nível muito superior à esmagadora maioria da população. Se pensarmos ainda em toda a fase de censura que a ditadura militar levou adiante com mãos de ferro, a conclusão será de que a liberdade e o incentivo à produção intelectual livre nunca encontraram um nicho muito adequado para serem desenvolvidos de uma forma democrática, ficando fadados à uma elite intelectual apartada das massas. Desta maneira, a baixa qualidade da educação pública brasileira não é nenhuma novidade nem tão pouco o seu inacreditável declínio uma pura obra do acaso.

É claro que todo o sistema educacional deve ser amplamente reformado. Mas para manter o foco deste post, um dos grandes desafios educacionais do momento, além da correta implantação da filosofia na grade curricular do ensino médio, é o esforço para defender os valores de um modelo de ensino laico. O modelo vigente, já bastante fraco, vem sofrendo ainda fortes abalos pela progressiva adoção do ensino religioso nas escolas públicas deste país, na maioria das vezes sob o enfoque prático e não histórico (para maiores informações sobre o assunto, vide o post "Liberdade?!?!?"). Se a adoção do ensino religioso continuar da forma como está, a filosofia terá, mais uma vez, nenhum espaço para se desenvolver para além dos domínios acadêmicos de algumas poucas universidades. Agora, imaginem um modelo de educação que, não somente deixa de ensinar as crianças a pensar, como ainda introduz o ensino religioso na grade curricular das escolas públicas funcionando em pleno vapor daqui há alguns anos. No futuro, não haverá espaço para o questionamento, indagação, contestação, produção intelectual livre e diversidade cultural nem ao menos nos ambientes acadêmicos por causa do ingresso de uma legião de jovens que foram doutrinados desde o período do ensino médio.

Para quem acha que estou exagerando na descrição do cenário, parte das evidências que corroboram o que estou tentando dizer está presente na matéria de capa da semana passada da revista Época, cujo título é: "Deus É Pop". A matéria fala sobre recentes pesquisas, as quais revelaram que 95% dos jovens brasileiros consideram-se religiosos, 57% acreditam que é importante participar de atividades religiosas, 60% acreditam que Deus interfere diretamente em suas vidas e 79% acreditam na importância da oração. Este alto índice de religiosidade entre os jovens é bastante significativo ao abordarmos a diminuição da rebeldia entre os mesmos.

Contudo, há quem possa afirmar, baseado inclusive na própria revista, que os jovens não deixaram de ser rebeldes, haja visto o exemplo de uma garota evangélica toda tatuada dentre outros exemplos ao longo da matéria. Devemos considerar, todavia, que a rebeldia nos casos demonstrados permanece muito mais concentrada a pequenos grupos se for comparada com a amostragem total e, paradoxalmente, canalizada para o fortalecimento da tradição. Sendo a religião um dos pilares de sustentação da estrutura da nossa sociedade, tal manifestação é uma rebeldia às avessas, a qual serve para fortalecer o sistema ao invés de fornecer as bases para reformulá-lo. Embora haja novas roupagens para interpretar uma estória muito antiga (refiro-me aos novos formatos das igrejas evangélicas), os fundamentos milenares do Cristianismo continuam ali presentes e cada vez mais arraigados. Estamos, então, falando aqui de uma rebeldia em pról da continuidade. O comportamento pode até ser rebelde mas as motivações estão impregnadas de uma valorização da situação. Para quê ser rebelde então? É como se os jovens lutassem para continuar presos em uma penitenciária. Pode existir algo mais desconexo do que isso? Creio que não...

São por essas razões que eu fico cada vez mais decepcionado com os nossos jovens. Não existe nada mais deprimente do que observar adolescentes de 15, 16 ou 17 anos dirigindo-se de bom-grado para assistir uma missa católica ou um culto evangélico com uma visão de mundo já predefinida. Programa-se, na melhor fase de suas vidas, de que forma todo o restante de suas vidas será vivido. É a morte, ainda em tenra idade, de toda ideologia, questionamento e reforma das bases de uma sociedade em ruinas. Fazendo o livre uso de uma analogia, é como se pudéssemos ver vários jovens, com toda uma vida pela frente, amarrando-se à estrutura de um grande navio que está afundando ao invés de saltarem da embarcação para tentar salvar suas próprias vidas. Nada mais triste e paradoxal para os representantes do nosso futuro...

Abs:
Marcio

terça-feira, 5 de maio de 2009

Liberdade!?!?!

Em matéria da sessão "Vida e Religião" do site do Estadão, temos o seguinte parágrafo:

"Bento XVI também se referiu à liberdade conseguida por esses países nos últimos 20 anos, assinalando que a experiência da adquirida liberdade traz às vezes consigo "o risco de que os valores cristãos e humanos, tão arraigados na história e na cultura desses povos e de todo o continente europeu, possam ser suplantados por outros."

Indo direto ao ponto, de acordo com a maior autoridade do Cristianismo, a liberdade traz o risco de que os valores cristãos sejam substituídos por outros. É isso mesmo o que ele disse ou eu estou ficando louco? Ou seja, a liberdade é boa até certo ponto, desde que ela não permita que as pessoas escolham valores diferentes daqueles defendidos pelo Cristianismo. Foi exatamente isso que o Papa disse. Então, que raio de liberdade é essa? Desde de quando a liberdade é condicional? Desde quando existe liberdade se a mesma é considerada "um risco" quando alguém escolhe outra coisa que não seja aquilo que a Igreja prega? Isso é uma afirmação perigosíssima. Em pleno século XXI, ainda somos obrigados a ouvir coisas deste tipo, de alguém que deveria dar o exemplo de defensor da humildade, do humanismo, da diversidade de credos e, principalmente, da liberdade. Não é a primeira vez que Bento XVI "solta" asneiras como essa; um dos seguidores deste blog, o Roni, disponibilizou um link no post "Atentado à Razão" com declarações muito infelizes do Pontífice mas, desta vez, eu fiquei realmente indignado. Liberdade desde que seja condicionada aos preceitos religiosos? NÃO! É inaceitável pelas palavras oficiais do Cristianismo e pelas palavras de qualquer outra autoridade representando qualquer outra religião.

Lembro-me que fui educado em escola pública de um país laico. Hoje, o ensino religioso é comum nas escolas públicas espalhadas pelo país com a disseminação de toda sorte de equívocos, despreparo, inclinações, parcialidades, tendencionalismos, pressões, fanatismos e abuso de poder sobre nossas crianças. É um retrocesso sem tamanho e para quem quiser maiores detalhes sobre tais afirmações, vide a matéria "Jesus Vai A Escola" da revista Época, clicando nas 3 páginas com links abaixo do texto. Cadê a nossa liberdade? Somos ou não somos livres para escolher aquilo que bem entendemos? Colocar nossas crianças em plena fase de formação para receberem esse tipo de influência que, como a própria matéria demonstra, está longe de ser imparcial é um atentado à um direito que já tínhamos conquistado e agora sabe-se lá que tipo de consequência isso pode ter sobre nossa sociedade. Liberdade certamente não será...

Vejam também o post "Segunda Idade das Trevas" deste blog para começarmos a montar a imagem do que o futuro pode estar reservando para gente. Espero estar muito enganado...

Abs:
Marcio