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segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Homem Acima da Religião!

Eu gostaria de fazer duas perguntas bem diretas a todos os internautas que tem acesso ao meu blog:

1) O que vocês fariam se soubessem que um vizinho seu abusou sexualmente de várias crianças do seu bairro durante muitos anos?

2) O que vocês fariam se soubessem que um amigo desse seu vizinho sabia que ele abusava sexualmente de crianças mas foi omisso porque ambos participavam do mesmo time de futebol de várzea e nada foi feito para denunciar o estuprador?

Creio que a primeira reação diante da notícia de abusos sexuais envolvendo “seu vizinho” e “aquele amigo dele” seria uma mistura desagradável de muita revolta e indignação. Desta maneira, a única resposta possível para uma mente sã seria de que ambos os personagens são culpados pelos terríveis crimes, ainda que respeitadas as proporções de gravidade entre os dois comportamentos. Acho que este meu raciocínio estaria de acordo com praticamente todos aqueles que lessem este post. Seria quase que uma hunanimidade, correto? Bom, eu sei que são perguntas muito incômodas e aparentemente fora do contexto do blog mas eu explico um pouco melhor: as perguntas encaixam-se perfeitamente na situação que a Igreja Católica vivencia hoje ao ser acusada de pedofilia e abuso sexual. Na analogia acima, o vizinho equivale aos padres acusados e o amigo do vizinho equivale ao Papa Bento XVI. Exatamente igual!

Seria cômico se não fosse muito trágico o fato de fazer uma enorme diferença uma simples troca de personagens. Para muita gente, o crime é amenizado pelo fato dessas pessoas fazerem parte da estrutura institucional da Igreja.

Peço desculpas pela insistência no mesmo assunto mas é que estou muito incomodado com os comentários que eu vejo por aí em sites de notícias por parte dos fiéis que, mesmo diante desse quadro absurdamente inaceitável, ainda defendem com unhas e dentes o Papa e sua religião. O respeito à dignidade humana deve estar necessariamente acima de qualquer partido político, raça, classe social ou religião. Eu disse acima de qualquer religião! Não interessa a procedência, história, mártir, líder ou santo. Não interessa!

Quanto mais nós colocamos a religião acima do respeito e da dignidade humana, mais longe nós estamos de vivenciar um mundo melhor. Quanto mais nós achamos que pelo fato de um estuprador vestir uma batina ou um criminoso ser o líder de uma religião ambos mereçam tratamento especial, mais nós estaremos contribuindo para afundar este mundo em uma Segunda Idade das Trevas.

Abaixo toda a escuridão da autoridade religiosa! Viva a luz da grandiosidade humana!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pior Cego é Aquele Que Não Quer Ver

O Padre Raniero Cantalamessa, durante a missa da Sexta-Feira Santa na Basílica de São Pedro, declarou que as recentes acusações de escândalos de pedofilia contra o Papa Bento XVI e a Igreja Católica equivalem "aos aspectos mais vergonhosos do antissemitismo". Figura influentre no Vaticano e único autorizado a pregar para o Papa, Cantalamessa recebeu críticas em todo mundo por dizer tamanha besteira e inflou ainda mais a indignação de inúmeras pessoas como o secretário geral do Conselho Central de Judeus da Alemanha, Stephan Kramer, o qual comentou:

"É repulsivo, obsceno e sobretudo ofensivo a todas as vítimas de abuso, bem como a todas as vítimas do Holocausto", declarou Kramer. "Até o momento eu nunca vi São Pedro pegar fogo, e também não houve explosões de violência contra padres católicos. Estou sem palavras. O Vaticano agora tenta transformar algozes em vítimas."

E é exatamente isso. A primeira estratégia do Vaticano frente às atrocidades foi a omissão. Depois, veio o silêncio, fingindo que não estava acontecendo nada de errado nos bastidores da Igreja. Em seguida, culparam até o Diabo pelos “ataques à Igreja” (os padres molestam inocentes e é Satanás quem vira o responsável pelo comportamento hediondo – veja mais no blog Pensamento em Extinção). E agora, parece que a posição oficial da Igreja frente às acusações de pedofilia é “dar uma de vítima”. Insinuar que é tudo “perseguição” e ainda comparar acusações de pedofilia com “antissemitismo”, obriga-nos, paradoxalmente, a ter dó de estupradores só porque estes vestem batina!

O pior é que na página do G1 onde está publicada a notícia, existem comentários de pessoas que ainda defendem o padre Cantalamessa, o Papa e a Igreja, alegando que o Deus está com o Papa e que não existe nada de errado apesar das acusações. Quer dizer, não existe nada de errado porque certamente não foram essas pessoas as vítimas de estupro ou abuso sexual. Se tivessem passado por essas horrendas experiências, certamente teriam uma opinião bem diferente.

É impressionante o que a fé religiosa faz com as pessoas. Deixam-nas cegas, mesmo aquelas que são de boa-índole e não são fanáticas em suas crenças, ao ponto de ficarem irracionalmente ao lado de charlatões, fascínoras e criminosos. Defendem sua fé com unhas e dentes, mesmo que isso custe o sofrimento de crianças que foram abusadas sexualmente por homens nos quais elas depositaram a sua mais inocente confiança. Para cada ato de indiferença, acobertamento ou "vista grossa" dos católicos em relação aos abusos sexuais dentro da Igreja, há um certo grau de conivência com o abominável que torna cada um desses fiéis responsáveis indiretos pela perpetuação da atrocidade. A cegueira é tanta que, no caso de uma hipotética segunda vinda de Jesus, o pobre do nazareno seria torturado mais uma vez pelos seus próprios seguidores, incapazes que estes seriam de reconhecer a autenticidade de seu messias pelo espesso véu de sua fé.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Insano Vaticano

O alto escalão da Santa Sé, incluindo o então cardeal Joseph Ratzinger (que viria a se tornar o Papa Bento XVI), acorbertou um sacerdote norte-americano, reverendo Murphy, o qual teria abusado sexualmente de aproximadamente 200 menores surdos, segundo documentos da Igreja obtidos e revelados pelo jornal "The New York Times" (veja artigo completo no site de notícias G1). O arcebispo de Milwaukee em 1996, Rembert G. Weakland, enviou duas cartas ao Vaticano informando a situação e não obteve resposta do então cardeal Ratzinger (mais uma vez, o nosso Papa atual), o qual dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé, comissão encarregada de estudar casos de abuso sexual. Como se já não bastasse o absurdo da acusação em si, o porta-voz do Vaticano afirma que não foram tomadas providências punitivas contra o sacerdote americano na época pois, “visto que o padre Murphy era idoso, sua saúde era precária, vivia em isolamento e não havia novas acusações nos últimos 20 anos, a Congregação para a Doutrina da Fé tomou em consideração a restrição e pediu que aceitasse a responsabilidade por seus graves atos". Ou seja, a maior autoridade da Igreja Católica fez vista grossa e foi conivente com os terríveis atos do reverendo Murphy, sendo que a justificativa oficial para não denunciar e punir o criminoso foi a de que o estuprador já estava “velhinho e com saúde precária”.


Será que eu estou ficando louco? Quer dizer que se um criminoso que prejudicou a vida de várias pessoas não é descoberto e posteriormente sentenciado, ao ficar velho e doente ele estará automaticamente livre de todas as punições cabíveis? Mais revoltante ainda foi o conteúdo da carta que o reverendo Murphy enviou ao cardeal Ratzinger (desculpem-me pela redundância, mas o cardeal em questão é hoje o nosso Papa), em 1998, ao prestar contas sobre seu comportamento doentio com seus superiores: "Só quero viver o tempo que me resta na dignidade do meu sacerdócio". Quer dizer, além de querer falar em "dignidade" depois de abusar sexualmente de 200 menores, o tal do reverendo ainda tem a audácia de dizer "só quero", como se a vontade dele pudesse prevalecer sobre a gravidade de seus atos hediondos. Hipocrisia nojenta, absurda e inaceitável de todos os envolvidos.


A Igreja que tanto se orgulha de bater no peito e dizer que representa o baluarte da moral e bons costumes no planeta Terra não está, na prática, fazendo justamente o contrário do que prega? Apesar de muita gente usar o argumento de que “precisamos da Igreja para nos orientar sobre o que é certo ou errado”, justificativa questionável sob diferentes aspectos, a Igreja está muito longe de ser o nosso “norte moral”.


Não é a primeira vez que a Igreja se enrosca vergonhosamente com denúncias sobre pedofilia ou abuso sexual. O recente caso de acobertamento de pedofilia na Irlanda, envolvendo inclusive o irmão do Papa Bento XVI, o qual negou a pedofilia mas confessou que espancava crianças (pasmem!), é apenas um dos exemplos de como o mais alto clero está comprometido até o pescoço com esses atos abomináveis, os quais seriam quase que hunanimamente punidos com severidade se estivessem fora do ambiente cristão. E ressaltando que, apenas nas últimas semanas, o Vaticano tem sido obrigado a lidar com uma série de acusações não só na Irlanda, mas também na Alemanha, Áustria e Holanda, eu me pergunto o quanto que ainda nós não sabemos sobre a podridão existente nos bastidores da Igreja. Na verdade, não precisamos ter "acesso aos bastidores" para traçar um perfil sobre a nefasta influência da Igreja sobre o mundo. Aos poucos interessados em história, vale fazer aqui um parênteses onde parece ser apenas a ponta de um imenso iceberg...


Esta é a parte mais triste de todo estudo sério a respeito da história das religiões, pois ao analisarmos friamente o passado delas, principalmente o passado do Cristianismo, perceberemos quanto o poder, os interesses, o egoísmo, a vaidade, a manipulação e até a insanidade mental foram capazes de construir uma história de guerras, mentiras, sofrimentos e barbaridades sem tamanho. Essa visão negra das religiões pode parecer um grande exagero mas está a disposição daqueles realmente interessados em saber a verdade nos bons livros de história espalhados pelo mundo. É um trabalho árduo de pesquisa cujo resultado acaba sendo recompensado pelas revelações quase sempre inusitadas. Deste modo, um estudo mais aprofundado sobre os primórdios do Cristianismo leva-nos irremediavelmente a aceitar que o registro tardio das idéias e eventos que envolveram a figura do Cristo, uma grande dose de influência da cultura grega, a violenta disputa entre diversas linhas de interpretação, a manipulação em função dos interesses do período e o crescente poder da Igreja como instituição acabaram por fazer de Jesus de Nazaré e o Cristianismo duas coisas díspares logo nos primeiros anos de existência. Aos poucos foram sendo criadas leis, regras, condutas, revisões dos dogmas existentes, adições ou alterações dissimuladas dos textos do cânone cristão com o intuito de aumentar ainda mais o poder da Igreja, dando corpo ao que seria o mais alterado livro de toda a história: a Bíblia. Com o tempo também foram sendo criados santos e mártires, alguns dos quais apenas com o intuito de fortalecer e justificar os fundamentos do poder eclesiástico. O fanatismo, por sua vez, deu o tom da expansão do Cristianismo sobre o mundo, sendo coroado talvez no momento de maior insanidade entre os séculos IX e X. Nesse período, outros absurdos fatores de distorção tais quais a escalada da corrupção em meio a imensa riqueza acumulada, a exploração escandalosa dos fiéis, o abuso de poder, a promoção de inúmeras orgias, as relações sexuais incestuosas, os atos de extrema demência mental e os crimes hediondos mais variados envolvendo os altos dignatários da Igreja (inclusive os Papas) distanciaram ainda mais os rumos do Cristianismo em relação ao objetivo original proposto pela doutrina. Em suma, a Igreja deste período conseguiu reunir tudo o que havia de mais abominável no ser humano, constituindo a mais perfeita oposição de sua própria prédica. Isso sem citarmos os séculos seguintes de lamentáveis atrocidades contra a humanidade numa época que acabou sendo conhecida por “Idade das Trevas”, tamanha foi a nefasta ignorância com a qual a Igreja influenciou o mundo.


Tudo isso acabou fazendo dos cultos, ritos e idéias que norteiam a cultura cristã no mundo de hoje apenas o fruto de uma “mutação secular” que parece ter pouquíssima ou até mesmo nenhuma relação com indivíduo que inspirou seus inúmeros seguidores. Tal qual um típico culto da carga, a figura de Jesus de Nazaré ecoou no espaço e no tempo com bastante distorção.


Na hipótese de um Jesus histórico ser capaz de testemunhar os desdobramentos de suas pregações nos dias de hoje, este provavelmente ficaria imensamente enojado com tantas barbaridades feitas em seu nome.


Abs,

Marcio