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domingo, 13 de março de 2011

Dor de Barriga dos Deuses

Impressionante como os crédulos de plantão se aproveitam dos desastres e catástrofes naturais para justificarem suas crenças. A cada erupção vulcânica, terremoto, tsunami e todas as suas conseqüências para a vida humana, existe uma justificativa muito plausível (segundo as premissas de quem interpreta os fenômenos) para os acontecimentos: expurgação do mundo, apocalipse bíblico, profecias, calendário Maia, transição planetária, alinhamento galático, era de aquário, 2012, etc. Apelamos e fortalecemos nossas crenças nesses momentos de profunda comoção, esquecendo-nos que devemos ser atores e não telespectadores do grande filme da vida.

A analogia cinematográfica para tais situações deve-se ao fato dos crédulos acreditarem em agentes externos à nossa vida, os quais orquestrariam acontecimentos fora do nosso controle. A falta de conhecimento é um outro ingrediente que adiciona ainda mais cegueira ao problema ao sermos testemunhas das interpretações equivocadas de que “as coisas estão piorando”, “os desastres estão se multiplicando”, sendo que, na verdade, coisas deste tipo sempre ocorreram mas o que mudou de forma exponencial foi o nosso poder de comunicação e cobertura de tais eventos. Assim, na tentativa desesperada de “criar uma zona de conforto psicológico”, procuramos justificar tais desastres pela ótica da intervenção de uma força maior, a qual define quem deve morrer e quem deve prosseguir em nossa jornada sobre a Terra. A interpretação de uma catástrofe, portanto, seria da perspectiva de quem assiste um filme, sem ter nada o que fazer para mudar o enredo.

A questão totalmente equivocada é a de que podemos fazer algo sim, se não para mudar a situação, pelo menos para minimizar os impactos de cada catástrofe. Para isso temos inteligência, a qual nos fez descer das árvores e estar aqui agora lendo este texto na Internet. Estou longe de ser um otimista desvairado, daquele tipo que usa lentes cor-de-rosa e enxerga tudo de forma harmoniosa. Aliás, combato justamente isso da forma que eu posso em meu dia-a-dia. Mas devemos ser otimistas realistas e utilizar mais o nosso intelecto para aprimorar nossos sistemas de prevenção ou antecipação dos desastres (Japão é um bom exemplo disso) e abandonar definitivamente tecnologias obsoletas por causa do maldito poder econômico como a utilização de combustíveis fósseis e de energia nuclear (Japão é um mal exemplo disso).

Parte das ações necessárias para que tais mudanças ocorram depende do muito mais complexo abandono de nossas próprias crenças em como o mundo e a vida se movem. Crenças de que existam forças, energias ou planos além do domínio humano conspirando para que desastres ocorram. Desta forma, deixamos de ser telespectadores e passamos a ser atores de um grande filme chamado vida, tomando as rédeas de nosso próprio futuro.

Parafraseando o grande Peter Diamandis, criador do X Prize, projeto que viabilizou a primeira viagem privada de uma aeronave para fora da órbita terrestre: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo pelas nossas próprias mãos”. Se acreditamos fortemente em destino, em uma força maior que controla absolutamente tudo, mais catástrofes ocorrerão, mais pessoas morrerão e mais pessoas justificarão tudo pela perspectiva de uma "força superior”. Está mais do que na hora de sermos mais responsáveis pelos nossos atos, de acreditarmos na capacidade do ser humano e de parar de acreditar que as coisas que acontecem ao nosso redor são o fruto da dor de barriga dos deuses...

Abs,
Marcio

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Campanha OUT!

Já mencionei algumas vezes que não me considero um ateu propriamente dito e sim uma pessoa agnóstica ou um livre pensador. Mas acho mais do que legítimo a campanha encabeçada pelo famoso biólogo britânico Richard Dawkins: "Ateus, saiam do armário". E por quê eu acho isso, para o desespero da maioria das pessoas? Justamente por isso: por causa de uma maioria sufocante. Em outras palavras, já tem gente em demasia fazendo o contrário: gente demais falando sobre Deus, sobre o que seria Deus, sobre como Deus agiria sobre o mundo e o que é pior: sobre como nós deveríamos agir e pensar diante desse "Deus". Gente demais dizendo como eu e você deveríamos pensar, se comportar e, por fim, viver. Desta maneira, está mais do que na hora de promover um equilíbrio entre forças, uma vez que se há plena liberdade para as pessoas expressarem sua fé, tem que haver necessariamente a mesma liberdade para as pessoas expressarem sua "ausência-fé". E é com esse espírito de justiça que divulgo a Campanha Out no meu blog:

Ateus sempre estiveram na vanguarda do pensamento racional, e agora você pode compartilhar seus ideais fazendo parte da Campanha OUT.

come out

Ateus são muito mais numerosos do que a maioria das pessoas imagina. Saia do armário! Você se sentirá livre, e seu exemplo vai encorajar outros a sair também (Não "tire" ninguém, espere que eles saiam por si mesmos quando estiverem prontos).

reach out

A Campanha OUT permite aos indivíduos mostrar aos outros que não estão sozinhos. Também pode ser uma boa forma de se iniciar uma conversa e ajudar a demolir os estereótipos negativos dos ateus. Deixe o mundo saber que não estamos prestes a desaparecer e que não vamos permitir que aqueles que nos condenam empurrem-nos para as sombras.

speak out

À medida que mais e mais pessoas aderirem à Campanha OUT, menos e menos pessoas se sentirão intimidadas pela religião. Nós podemos ajudar os outros a compreender que existem ateus de todas as formas, tamanhos, cores e personalidades. Somos trabalhadores e profissionais. Somos mães, pais, filhos, filhas, irmãs, irmãos e avós. Nós somos humanos (somos primatas) e somos bons amigos e bons cidadãos. Somos boas pessoas que não têm necessidade de se agarrar ao sobrenatural.

keep out

É tempo de deixar as nossas vozes serem ouvidas quanto à intrusão da religião nas nossas escolas e na política. Ateus, juntamente com milhões de outros estão cansados de ser intimidados por aqueles que empurram seus próprios conceitos religiosos garganta abaixo de nossos filhos e nossos governos. Precisamos manter o sobrenatural fora de nossos princípios morais e políticas públicas.

É hora de dar um passo a frente e... sair do armário.

stand out

Temos muitos planos e atividades para a Campanha OUT, por isso não deixe de visitar OutCampaign.org para as últimas informações.

Sites relacionados:

No Orkut: http://www.orkut.com/Main#Community?cmm=43326894

Site oficial do Richard Dawkins: http://richarddawkins.net/


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Para Quem Acredita (parte 3)

Finalizando a série de posts “Para Quem” (recomendo a leitura dos últimos 3 posts pois estão todos interligados), nem tudo são flores neste mundo de experiências insólitas daqueles que buscam trilhar o tortuoso caminho do conhecimento. A busca por respostas passa necessariamente por muitos desafios, os quais nem sempre são superados pela gente. E é sobre isso que eu falarei agora.

No post anterior eu fiz uma breve introdução à Missão Rama do Brasil e, apesar dos elogios que fiz e sempre faço à experiência pela qual eu passei, não posso deixar de levantar críticas ao processo. Para quem leu os posts anteriores eu peço licença agora para escrever a respeito de algo que, apesar de ser muito particular de quem participou da Missão Rama, é um problema para todos nós em maior ou menor grau: não assumir nossos inúmeros erros. A Missão Rama do Brasil sofreu com vários erros humanos e seria uma traição absurdamente grande ao próprio discurso original ignorar por completo tais erros. Por isso, passo agora para o questionamento, ferramenta que integrava a espinha dorsal do projeto, para falar de alguns aspectos equivocados que, até hoje, representam a linha de pensamento de muitos ex-integrantes.

A descrição da Missão Rama, seja por escrito ou no discurso falado, sempre foi muito ousada e desafiadora e, por isso mesmo, me atraiu logo de cara. No final do livro “OS Semeadores de Vida”, existem dois trechos que descrevem de uma forma bem resumida o objetivo do trabalho, os quais eu transcrevo em seguida:

“O Projeto Rama não é dono de nenhuma verdade, de nada que seja definitivo. O que temos a mostrar é o que agora nos parece mais coerente e mais prático, sendo que amanhã poderá ser substituído por uma nova descoberta, por uma outra conclusão ou até por uma nova proposta. Nós não temos nada determinado ou determinante, a não ser o objetivo de errar menos. Nós não temos verdades, apenas perguntas objetivando respostas. Não temos líderes, apenas seres humanos irmandados na construção e realização de um futuro.”

“O Projeto Rama é um movimento sem qualquer vínculo econômico, não existindo circulação de dinheiro em hipótese alguma. Existimos como uma proposta que visa estruturar uma base para o trabalho de reformulação, tanto de parâmetros como de referências e critérios de análise. Questionar os processos convencionais de aprendizagem, assim como os valores convencionalizados. Procuramos refletir sobre as relações culturais que determinam as convenções, para poder evidenciar as falhas que ocorrem no processo formativo psicológico e social do indivíduo, e descobrir o que verdadeiramente existe por detrás do universo material. Buscamos ter acesso aos mistérios da vida e da morte, sem ter, para isso, qualquer compromisso doutrinário. Nossa descoberta é própria e livre, pois não existe para provar se somos melhores, apenas para saber e identificar em que direção nos devemos mover.”

E é partindo dessas descrições que eu questiono agora os próprios mitos e dogmas da Missão Rama. São chavões e linhas de raciocínio que foram criados e sedimentados como verdades ao longo do tempo, indo contra os princípios da própria proposta original. E é por isso que este texto finaliza a série “Para Quem”. Espero que fique claro para quem leu os 3 posts anteriores o quão ingênuas são certas premissas que ainda “pairam no ar” ao redor da cabeça de alguns ex-integrantes do Projeto.

Não pretendo ser completo aqui nestes questionamentos. Cada ponto levantado pode ser esmiuçado de inúmeras formas, existindo ainda outros mitos e senões, os quais eu não exploro por simples falta de tempo e espaço nestes posts cada vez mais longos... Mas vamos à alguns questionamentos mais imediatos na minha mente:

1) NÃO ENTREI NO PROJETO PARA VER NAVE.

Por trás deste argumento, existe uma premissa de que, em primeiro lugar, ver OVNIs seria uma coisa para pessoas baixas, ignorantes, materialistas, preocupadas com fenômenos mas não com o “desenvolvimento humano”. Pessoas que “só estão a fim de bagunça”, ou seja, “arruaceiros” e outras tolices. Quem diz isso geralmente acha-se mais “evoluído” ou “comprometido” que os demais, e coloca sua “busca espiritual” acima de “coisas sem importância”.

Este tipo de raciocínio foi e ainda é bastante comum não só entre os integrantes da falecida Missão Rama mas também na tal da “ufologia mística”. E o pior é que, quem se manifesta desta maneira, realmente não entendeu nada sobre o impacto e/ou grandeza envolvidos em um suposto contato físico. Partindo do princípio (muito benevolente de minha parte, eu confesso) que este tipo de evento é algo extremamente raro (para entender a alegação sobre a extrema raridade de contatos, vide o post “Para Quem Acredita (parte 1)”), nós não temos noção do quão arrebatador, revolucionário e transformador um fenômeno físico autêntico seria. Pensar que, dentro de uma sociedade cuja absoluta maioria das pessoas desconsidera por completo essa possibilidade, um evento físico seria algo irrelevante ou secundário é um raciocínio muito simplista de gente que acha que já aprendeu o suficiente, “conhece” ou “sabe” além da média humana. Falácia pura, traiçoeira e imensamente perigosa. Um eventual contato físico com uma civilização alienígena representaria um evento sem paralelo em nossa sociedade, uma oportunidade única e avassaladora de possuirmos uma referência externa ao nosso próprio planeta, trazendo uma avalanche de questionamentos e indagações que colocariam em xeque os próprios alicerces da nossa civilização como um todo (inclusive as concepções tidas como “avançadas” nas cabeças das pessoas sob influência da visão mística-esotérica). Um evento importantíssimo, acima da capacidade de valorização deste tipo de pessoa, a qual precisaria aprender sobre o quão incrível e bombástico um eventual contato seria para ser capaz de valorizá-lo de forma suficientemente séria. Um acontecimento que representaria um novo paradigma, um novo estilo de vida em nossa sociedade, acima dos paradigmas religiosos, esotéricos, ufológicos e outras "avançadas diferenciações". E é lógico: deduzir que os ETs pensam conforme eu penso, diferentemente da média geral de seres humanos (partindo do princípio que eu fosse partidário deste tipo de raciocínio) seria algo muito conveniente para o meu ego, já que o menosprezo por uma eventual fenomenologia física caracteriza que a pessoa já passou "dessa fase" na qual qualquer réles mortal estaria.

Enfim, quem diz que “contato físico não interessa” é porque ainda não aprendeu a fazer perguntas, justamente por achar que já possui respostas em demasia. Então, nunca se dará o trabalho de se questionar ao ponto de ser obrigado a perguntar o básico novamente. Esta pessoa está em “um outro nível”. Com esse tipo de pessoa, eu não tenho o que trocar.

2) CONTATO É ENDOSSO DE TRABALHO.

Outra falácia própria do discurso de Carlos Roberto Paz Wells, o qual sempre baseou seu trabalho, pelo menos no início, nas saídas a campo com comprovação física. Não questiono este tipo de raciocínio no início da Missão Rama mas depois de anos e anos de trabalho é notório observar que isso virou um dogma de fé. Se considerármos que apenas uma minúscula parte dos relatos de fenomenologia física é verdade (e olha que existem inúmeros relatos), mesmo assim, as condições e perfil dos “contatados” é tão diversa que seria impossível determinar um “padrão humano para o contato”, já que se um “contatado” está mantralizando e outro tomando cachaça (exagerei no exemplo apenas para ficar claro o que eu estou querendo demonstrar) não há padrão a ser seguido. Isso não existe, a não ser que houvesse um jogo no qual as “boas ações” seriam recompensadas e as “más ações” seriam punidas, sendo nós, obviamente, as cobaias dessa história. Do contrário, não dá para estabelecer um nível de entendimento e/ou comportamento humano para que o contato “ocorra como prêmio”. Trocando em miúdos, partindo do pressuposto de que alguns contatos sejam reais, isso dependeria completamente dos alienígenas, e achar que contato é “endosso de trabalho bem-feito”, como era comum de se achar na Missão Rama, é enxergar a riqueza da fenomenologia de uma forma muito linear e conveniente para nós, seres humanos. Os objetivos (nossos e os deles) não teriam que ser necessariamente casados para um encontro ocorrer. No final das contas, sempre dependerá 100% dos alienígenas, quer a gente goste disso ou não.

3) A "ELASTICIDADE" DAS COMPROVAÇÕES

A comprovação física, clara e concreta dos contatos sempre foi muito enfatizada no Projeto. Nada menos do que isso seria reconhecido. Todavia, foi incrível o quanto isso foi sendo "esticado com o tempo", fazendo com que outras coisas mais questionáveis e menos palpáveis acabassem entrando no hall de "comprovações", para nossa boa e velha conveniência, é claro. Desta maneira, eventos mais sutis e questionáveis começaram a fazer parte daquilo que muitos consideraram como "comprovações", transformando a necessária rigidez inicial, "certificado da nossa sanidade mental", em uma condescendência muito generosa. Se bem que tal fenômeno sempre partiu muito mais dos integrantes do que dos instrutores (participantes mais experientes), a falta de comprovação nos moldes iniciais fez com que alguns forçassem a barra ao incluir coisas absurdas na lista de "comprovações físicas".

4) QUEM SAI DO PROJETO É PORQUE NÃO ENTENDEU A PROPOSTA.

Se bem que isso pode ter sido verdade muitas vezes, não foi necessariamente a regra. É fácil concluir que a pessoa que está desistindo do trabalho não entendeu absolutamente nada. Pensar que “o que levaria alguém que entendeu a proposta a sair da própria proposta?” seria o mesmo que admitir que nem tudo são flores ou que a maneira como a “proposta” está sendo conduzida está deixando a desejar. E admitir nossos próprios erros é uma coisa que não gostamos de fazer, seja individualmente ou em grupo.

5) ET É ANJO, GUARDIÃO, MESTRE OU GUIA ESPIRITUAL.

Este é o sintoma mais típico de religião. Foi um problema forte e continua forte até hoje na cabeça de alguns ex-integrantes. A idéia de que os supostos alienígenas zelam pelos seres humanos, se preocupam com nossos interesses ou até mesmo nos protegem “espiritualmente” é um princípio completamente religioso. Esses alienígenas não teriam mais o que fazer no universo? Seríamos assim tão especiais? É muita pretensão da nossa parte achar que eles se envolveriam com nossos problemas cotidianos, intervindo em nossa vida para resolver questões ordinárias, as quais só cabem a nós mesmos resolver. Tais quais as linhas evangélicas apregoam a respeito da influência de Deus nas questões mais idiotas da nossa vida, há aqueles que aplicam os mesmos princípios em suas visões particulares de como seriam os alienígenas: bonzinhos, meigos, angelicais, zelosos e de fala rebuscada (é só ler algumas das supostas mensagens de ETs que existem aos montes por aí na Inernet). Considerando ainda o tema explorado no post “Para Quem Acredita (parte 2)", o qual menciona o absurdo nível de distanciamento entre nós e os eventuais ETs através da analogia das formigas, fica escancaradamente humano pensar que eles falam, pensam ou possuem valores semelhantes e convergentes com os nossos. Essas pessoas, em outras palavras, não cresceram como seres humanos, não se emanciparam, pois necessitam desesperadamente de um “pai” ou “mãe” espiritual para serem responsáveis por eles, posto que assumir que estamos por nossa própria conta e risco seria muito doloroso. Continuam em uma infância expandida, alimentando sonhos de criança ao invés de amadurecerem e assumirem a responsabilidade de suas próprias vidas. Por ser o aspecto mais religioso é o mais perigoso, visto que coloca as pessoas em uma zona de conforto difícil de ser quebrada. Quem quer sair do ventre materno, quentinho, confortável, com comida à vontade e sob total proteção da mamãe? Pois é, seria justamente esse o tamanho do problema...

6) SÓ EU TENHO A VISÃO DO TODO.

Reconheço que existem pessoas com mais experiência e/ou conhecimento do que eu. Claro. Imaginar que eu sou o suprasumo do conhecimento humano seria algo muito deprimente para mim. Todavia, aceitar que fulano está no nível X,Y,Z de consciência e eu, réles mortal, devo aceitar tudo o que ele diz sem questionar, sob o pretexto de que isso seria “respeito” eu não tolero de forma alguma. Esse é outro sintoma típico de religião, constituindo a hierarquização dentro das organizações humanas, fenômenos tão comum e ao mesmo tempo tão nefasto para o nosso desenvolvimento. E o mais inusitado a respeito disso é o fato de eu ter descoberto que não só existem pessoas deseperadas para serem líderes como, em um maior número, existem aqueles desesperados para serem liderados. É impressioante como dentro da Missão Rama esse perfil foi aos poucos aparecendo e crescendo exponencialmente com o tempo, com pessoas sedentas por um líder, um guru, um ET ou qualquer outra “forma superior” que pudesse configurar uma relação hierárquica. Gente querendo ser guiada, orientada, enfim, querendo que alguém dissesse o que elas teriam que fazer. Essa sempre foi uma tendência contra o próprio discurso original, o qual apregoava o crescimento em conjunto, a quebra de hierarquias, o aprendizado não-linear e a ausência de líderes. Mas aprender a ser “intelectualemte independente” não é uma tarefa nada fácil e muito menos óbvia. Na esmagadora maioria das vezes, temos certeza de que somos livres mas dependemos das idéias e discursos alheios para sobreviver. Ter um discurso próprio é um comportamento para poucos nesta vida. E nisso a Missão Rama pecou em deixar de desenvolver nas pessoas, embora eu reconheça que somente o tempo e a maturidade façam as pessoas agirem de uma forma diferente.

Por outro lado, a figura do Carlos Roberto Paz Wells acabou intensificando este tipo de postura algumas vezes, promovendo a hieraquização por mais que seu discurso dissesse o contrário. E quando questionado sobre este tipo de postura, algumas vezes, mostrou-se tão ortodoxo quanto os líderes religiosos ao serem questionados: agindo com destemperamento e refletindo insegurança. Centralização de “poder” (no caso, especificamente, onde se lê “poder” entenda como “conhecimento”) e estruturação hierárquica só intensificam a ignorância e a segregação, fomentando relações verticais baseadas no “cala-a-boca”. O questionamento sempre fez parte da espinha dorsal da Missão Rama e a partir do momento em que o mesmo é “visto com maus olhos”, isto significa que tudo deve parar para ser imediatamente revisto, atitude que infelizmente não ocorreu.

Mas não podemos generalizar. Tanto líderes quanto liderados erraram em maior ou menor grau e dizer que um lado errou mais do que o outro seria muito simplista da minha parte. O Projeto como um todo, sim, perdeu e muito.

Apesar destas dentre outras críticas que eu ainda teria a fazer, a Missão Rama do Brasil foi a proposta que eu conheci cujos integrantes foram mais longe em fomentar a revisão, o questionamento, o aprofundamento, a mudança, o conhecimento e o desenvolvimento real das pessoas. Nunca vi nada igual em qualquer outro grupo ou proposta de desenvolvimento. Nada nem parecido. Por isso, reconheço humildemente que os pontos positivos superaram os pontos negativos do Projeto. Mas a estrutura organizacional infelizmente acabou, talvez em parte por causa dos efeitos dos erros citados anteriormente. Assim, espero que este humilde texto possa servir de inspiração inicial para que outros ex-integrantes espalhados por aí possam se manifestar e, juntos, possamos fazer jus a algo ainda tão ousado e avançado para os padrões atuais da nossa sociedade.


Abs,

Marcio

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Abaixo o Mistério

Aos poucos que acompanham este blog eu gostaria de pedir desculpas pelos quase 2 meses sem nenhum post novo. A justificativa para isso é que minha vida pessoal mudou rápida e radicalmente neste período, deixando-me sem condições psicológicas de exercitar minha escrita e dar continuidade ao espírito inquieto e questionador deste blog. A todos minhas sinceras desculpas...

Mas hoje, finalmente, tive um lampejo de inspiração para voltar a escrever. Ao zapear com meu controle remoto pelos canais da TV via satélite, parei por um momento na TV Paraná Educativa e observei atentamente a pregação de um padre na Missa de Corpus Christi realizada em Curitiba. Não tive paciência de ver muito tempo mas, durante o período que durou meu interesse, o padre mencionou sobre a importância de celebrar o “mistério da eucarisitia”. Sobre a importância de se comemorar o “mistério pascoal”. E é sobre a exaltação do conceito de mistério que eu gostaria de escrever um pouco por aqui. Trata-se de um conceito até bastante simples mas pouquíssimo difundido dentro das religiões por razões que tornar-se-ão óbvias logo em seguida.

As bases das religiões encontram-se fundamentadas na preservação e porque não dizer na intensificação da importância do conceito de mistério. E não é para menos. Se as religiões pregassem o conhecimento, a evolução e a transformação da sociedade em algo melhor qualquer tipo de mistério deveria ser necessariamente dissolvido.

Não existe nada de errado com o mistério desde que essa seja uma condição temporária. É natural haver situações para as quais o nosso nível de conhecimento não possui acesso. Não sabemos uma infinidade de coisas e a ciência, pelas suas próprias características indagadoras, objetiva conhecer esses “nichos de ignorância” e assim eliminar as “zonas de mistério”, promovendo a ampliação do conhecimento e a melhoria da sociedade. Todavia, preservar, celebrar e até exaltar a condição de mistério são comportamentos altamente retrógados e prejudiciais, pois objetivam manter as pessoas sob os véus da ignorância, tirando das mesmas o direito de entender os acontecimentos e checar se as informações correspondentes são verdadeiras ou não. Neste ponto específico, ciência e religião tornam-se aspectos totalmente incompatíveis da cultura humana.

Se temos a intenção de evoluir e melhorar em todos os sentidos, não podemos nos contentar com a existência do mistério. Se fôssemos levar em conta o que as religiões dizem a respeito do mistério, principalmente as 3 religiões irmãs (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), o mundo estaria ainda chafurdando nos pântanos negros da Idade Média. É muito comum, por exemplo, o argumento de que “Deus atua de forma misteriosas” ou “o mistério só faz sentido perante os desígneos de Deus” além de outras justificativas que objetivam varrer para longe o acesso ao conhecimento humano. Se Deus atua de formas misteriosas e se o mesmo só pode ser conhecido pelas "suas obras", como podemos ter a certeza de que Ele existe e que ainda atua de formas misteriosas? Tudo isso seria completamente desconhecido se fosse realmente verdade. Não é um absurdo contrasenso? Pensem nisso...

Não se deixem levar pelo argumento de que algo é misterioso. Pior ainda: não se convençam de que o mistério deva ser algo a ser celebrado e exaltado. Não deixem que isso vire um ponto final em suas buscas e indagações pessoais. Não aceitem isso como um “calem-a-boca” e “voltem para suas vidinhas de cordeiros submissos”. Questionem, ousem e busquem conhecer cada vez mais. Exterminem o mistério. Lembrem-se que, em pouco mais de 300 anos de existência, a ciência tal qual a conhecemos hoje já fez muito mais pela humanidade do que as religiões fizeram há milênios. Vocês só estão sendo aptos a ler este post por causa da existência da ciência, a qual proveu vocês com saneamento básico, remédios, vacinas, energia elétrica, computadores, Internet, etc. Já pensaram o que seria do mundo se os desbravadores do conhecimento estivessem satisfeitos com o conceito de mistério?

Abs,

Marcio

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Preguiça de Ler?

Há um pouco mais de 4 anos atrás, quando eu ainda era professor, notei que muitos alunos tinham problemas em escrever textos em Inglês não por conta das dificuldades com a língua recém-aprendida e sim por causa da incapacidade de elaborar redações em Português mesmo. Ou seja, percebi que havia grandes dificuldades em colocar idéias no papel, desenvolver textos com começo, meio e fim, bem como concatenar idéias e extrair sentido de textos em geral, mesmo em Português. Alguns argumentavam que tinham “preguiça de ler”, escondendo na verdade um problema muito mais complexo, o qual era fácil de ser diagnosticado através do devido acompanhamento. Por conta disso tudo, acabei entrando em contato pela primeira vez com o tema “analfabetismo funcional” através do diálogo com outros professores que notaram este mesmo tipo de problema no seu trabalho diário. Mas vamos à definição do termo:


Analfabetismo funcional é a situação na qual um indivíduo, mesmo com a capacidade de ler, escrever e lidar com números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos e de fazer operações matemáticas. Isto é, o analfabeto funcional não consegue extrair o sentido das palavras em uma leitura, colocar idéias no papel por meio da escrita, nem fazer operações matemáticas mais elaboradas, ainda que tenha diploma superior.


Segundo pesquisas do Instituto Paulo Montenegro, que realiza o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), apenas 26% dos brasileiros entre 15 e 69 anos são plenamente alfabetizados. Assim, de cada 4 pessoas, 3 não sabem ler direito. São mais de 80 milhões de jovens e adultos com dificuldades para desenvolver-se no trabalho ou socialmente porque são incapazes de interpretar textos, relacionar idéias e escrever fluentemente. É assustador observar que, em pleno século XXI, a falta de aptidão na leitura e escrita ainda adia as possibilidades de desenvolvimento em nosso país.


Diante da perplexidade dos números acima, e conforme adiantei no post “Blog Reformado”, acabei por achar no site oficial da FAPESP um texto para deixar todo mundo de cabelo em pé: o desenvolvimento de 2 softwares para simplificar a linguagem de textos que estão diponíveis na Internet ou na construção de textos novos para pessoas com deficiência em leitura. Em outras palavras: softwares que traduzem Português para Português (pasmém!). Ou seja, ao invés de investirmos pesadamente na educação básica do nosso país, estamos nivelando tudo por baixo, criando softwares que objetivam simplificar os textos para que facilitem a leitura daqueles que foram educados de forma inadequada (os quais as pesquisas identificam como 3 em cada 4 pessoas que passaram pela escola!).


Mas a qualidade na educação não é uma opção a ser considerada no Brasil. Guiado pela estupidez, vemos que o Estado optou pela quantidade em total detrimento da qualidade. E o resultado disso é a grande quantidade de analfabetos funcionais com nível superior. Na visão míope do governo, é preferível ver um cidadão com um diploma na mão do que saber se ele aprendeu tudo o que deveria ser aprendido ou pior ainda: saber se ele foi realmente educado.


O Brasil tem que se esforçar para alfabetizar com qualidade. Não é aumentando para 9 anos o Ensino Fundamental que a qualidade do ensino irá evoluir. Também não é ampliando o horário escolar que teremos o problema resolvido. Se os alunos não forem submetidos à iniciação científica, incentivados à leitura, envolvidos em atividades que fomentem a inteligência, o pensamento lógico, a curiosidade intelectual, a capacidade de indagação e a aptidão para relacionar temas diferentes, qualquer outra iniciativa do governo para melhorar a educação será em vão. Além disso, não devemos nos esquecer dos professores. Acentuada melhoria dos cursos de formação de docentes, remuneração plenamente compatível, capacitação continuada, etc. É um processo caro e trabalhoso, é verdade, mas investir na qualidade da educação é o melhor investimento que uma sociedade pode fazer para garantir o seu futuro.

Deixo aqui então uma mensagem para aqueles que tem a famosa “preguiça de ler”. Além do alerta para tal justificativa poder mascarar um outro tipo de problema, fica aqui o registro de que a leitura exige prática e continuidade como qualquer outro tipo de condicionamento físico. Caso seja constatado que é preguiça mesmo, vale lembrar que uma sociedade que não lê é uma sociedade mal-educada, sendo tal desinteresse de nossa parte uma contribuição para seu futuro fracasso.

Abs,

Marcio

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Blog Reformado

Ao questionar as possíveis razões deste espaço ser tão pouco visitado e comentado eu decidi alterar o aspecto visual e mudar o nome do blog. Agora os textos estão melhor distribuídos nas páginas com um visual que tende a favorecer uma visita mais confortável, facilitando assim a leitura. Em relação ao nome do blog eu tentei utilizar o título "Alien Vision", simplesmente porque gosto de Inglês mas, infelizmente, já tinha alguém utilizando esse nome. Então resolvi adotar a expressão “Visão Alienígena” no lugar do velho "Alien Puzzle". Ficou assim o novo endereço: http://visaoalienigena.blogspot.com.


A primeira razão para a mudança de nome é que andei lendo sobre o tema “analfabetismo funcional”, fiquei bastante deprimido com o assunto (isso se transformará em um post brevemente) e conclui que deveria utilizar um nome de mais fácil assimilação e memorização em Português mesmo. A segunda razão é que o novo nome tem maior ligação com os rumos que este blog acabou tomando, ligeiramente diferente daquilo que eu imaginei no começo (veja aqui o post de apresentação do blog).


Com relação a algumas sugestões que eu ouvi sobre o tamanho dos textos e o tom “ácido” e “crítico” das minhas palavras, me perdõem... Sei que podem ser justamente esses os fatores desencadeantes da falta de interesse pelo blog mas isso faz parte do meu estilo e continuará um item inalterado, pois não acredito em fórmulas carinhosas e tampouco saberia agir de um jeito diferente. Lembro-me de que as conversas e textos que provocaram as influências mais profundas na minha vida foram os de característica longa, configuração mais do que natural das situações importantes que exigem a explanação de uma linha de raciocínio. Desta maneira, simplifiquei o nome do blog mas estou longe de simplificar o que eu escrevo ou de mudar a minha maneira de abordar os assuntos como venho fazendo até o momento. Para aqueles que não gostam de textos grandes ou têm preguiça de ler, eu aconselho uma boa pesquisa sobre o tema “analfalbetismo funcional” pois, muito de repente, podem estar com um problema sério e não fazem idéia disso.


Abs:

Marcio

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Liberdade de Expressão

De vez em quando sou questionado sobre a razão de eu manifestar meu posicionamento cético e agnóstico abertamente na Internet por meio deste blog. Alguns até acham que os textos que eu escrevo por aqui são desrespeitosos e que seria conveniente eu calar minha boca (no caso seria melhor dizer “calar o teclado”) e guardar minhas opiniões apenas para o meu próprio proveito intelectual.

Por causa disso, eu já estava pensando em escrever um post para explicar essa minha necessidade de expressar o que penso quando me deparei com um texto do blog “Um Ateu de Mau Humor”, blog do qual eu sou seguidor e recomendo a leitura. Embora eu não me considere um ateu propriamente dito, sou um “simpatizante” da “causa” por considerar mais do que legítimo entender o mundo e a vida de uma forma diferente daquela que é apregoada pela maioria. E não é que lá no blog de autoria de Vides Júnior eu achei um texto que vem ao encontro, pelo menos em parte, daquilo que eu estava pensando em escrever por aqui?

Não costumo “copiar e colar” os textos de terceiros; prefiro criar os meus próprios mas o Vides conseguiu descrever aquilo que eu penso com tamanha perspicácia e sensatez que eu não resisti a tentação de copiá-lo na íntegra logo abaixo. Segue o texto que é a síntese da minha forma de ver o mundo:


“Oi você,
meu nome é Vides Júnior.
Eu tenho 38 anos e há 10 deles ganho a vida como jornalista e escritor.

Eu posso dizer com alguma segurança que a característica mais marcante da minha personalidade é o ceticismo. Eu geralmente não aceito as coisas por osmose ou por memética e acredito que o questionamento e a busca por respostas nos dão fundamentos e bases sólidas para enfrentar as adversidades que a vida nos impõe.

Atualmente, parte dos meus esforços de trabalho está voltada à divulgação do pensamento racional e do ceticismo. Por quê? Porque eu acredito que já tem gente demais defendendo o contrário.

Já tem gente demais falando sobre deus, tem gente demais traçando mapas astrais, tem gente demais realizando curas através das cores, das pedras e dos cheiros.

O mundo está tão cheio de logias e logias suspeitas, que a Terra parece se comportar como uma encruzilhada do Universo onde tudo é possível, de alienígenas a espíritos, de monstros a reencarnações. E por aí vai.

Por que eu decidi falar sobre ceticismo?

Por que eu acredito que o mundo possa ser tão mais mágico com os pés no chão do que voando num aviãozinho capenga chamado fé.

Eu te convido, você que ainda acredita em deus, mas tem dúvidas a respeito, a buscar algumas respostas junto comigo e descobrir que muitas das coisas que você considera milagre só o são porquê você não foi atrás das verdadeiras respostas.

O mundo não é tão mágico quanto você imagina, amigo. Eu digo isso porque eu tive minhas ilusões derrubadas pelo ceticismo. E a despeito do quadro ser meio assustador no início, eu posso dizer com mais segurança ainda que não existe nada mais confortável do que a verdade pra te dar as respostas que você procura.

A ilusão e a fé são só um paliativo para você continuar levando a sua vida como um carneirinho atrás do seu pastor. Se não é assim que você quer continuar vivendo, eu sugiro que você abra alguns livros e procure algumas respostas.

Nem todas as suas dúvidas são tão banais assim que não mereçam a sua reflexão. Mas talvez elas façam a sua vida ter um sentido maior do que você acredita que tem hoje.

Eu te deixo o meu abraço e espero continuar te vendo por aqui.” (fonte: blog "Um Ateu de Mau Humor")

Sei que o aspecto cético do texto do Vides envolveu também a questão extraterrestre e não vejo isso como uma ameaça ao que escrevo por aqui. Afinal de contas, se sou contra as religiões, não posso ver um posicionamento contrário ao meu como uma ameaça àquilo que eu acredito, pois estaria simplesmente agindo da mesma forma que um religioso age. Sim, embora aparentemente contraditório, eu também tenho minhas crenças pessoais. Mas procuro crer cada vez menos e compreender cada vez mais. Para tudo aquilo que eu ainda não compreendo eu prefiro tomar uma postura indefinida ao invés de forjar uma resposta. Essa é a minha filosofia de vida.


Mas como bem salientou o Vides, já existem pastores demais divulgando o evangelho, padres demais divulgando o catolicismo, pais de santo demais divulgando o espiritismo, gurus demais divulgando as leis da “nova era”, ufólogos demais divulgando os “objetivos dos extraterrestres”... Enfim, pessoas demais divulgando as vantagens da crença em detrimento da razão.


Se todos esses indivíduos gozam de plena liberdade para expressarem suas convicções porque eu não posso divulgar as minhas? São seres humanos igualzinhos a mim, vivendo no mesmo mundo em que eu vivo, compartilhando da mesma matéria da qual eu sou feito, urinando e defecando da mesma forma como eu faço. Por qual razão então eu não posso ter o direito de expressar aquilo que eu penso? Seria porque tais pessoas possuem autoridade para tal e eu não? Seria essa uma resposta aceitável? Em caso positivo, quem deu essa autoridade à elas? Para responder essa questão, vale aquela velha frase: “só existem líderes porque existem liderados em nosso mundo”. Ou seja, não é pelo fato da maioria abdicar de seu intransferível direito de pensar por conta própria e expressar aquilo que pensa que isso vira justificativa para eu calar a minha boca.


E o mais paradoxal dessa estória é que quando um religioso expressa seu ponto de vista abertamente, seja de que forma for, ele próprio considera isso como o exercício da sua liberdade religiosa. Porém, quando alguém expressa um pensamento contrário, o religioso encara isso como preconceito ou desrespeito. Até a evangelização é encarada como "liberdade de culto", ao passo que uma pessoa divulgando o pensamento ateísta é comumente interpretado como um ato de ofensa. Muito conveniente esse tipo de postura, vocês não acham?


É por essas e outras que eu termino muito atipicamente um post neste blog parafraseando Richard Dawkins (“Ateus, saiam do armário!”) e o nosso velho Zagallo (“Vocês vão ter que me engolir!”).


Nunca fui tão pessoal utilizando os pensamentos dos outros...


Abs:

Marcio

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Novidade no Blog

Devido ao meu ideal por fomentar discussões e exercitar nosso atrofiado intelecto eu decidi criar um espaço para discussões dentro do blog. Chama-se "Fórum" e encontra-se entre a caixa de pesquisa do blog e o meu perfil, do lado direito dos posts. O intuito, como já adiantei, é gerar discussões, no estilo e profundidade por mim almejadas nos posts, mas de uma forma um pouco mais centralizada e democrática, abrangendo desde de um post específico até o blog como um todo. Vamos ver se essa experiência dá certo. Para tanto, conto com a colaboração de seguidores e internautas em geral. Não deixem de escrever...

Liberdade de expressão! Aqui, todos tem espaço!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Futebol, Política e Religião

Lembro-me de ouvir a expressão "futebol, política e religião não se discutem" desde criança e o seu uso continua firme e forte até hoje, dando muita segurança para quem se utiliza dela. Como na esmagadora maioria das vezes, repetimos essa frase feito papagaios sem sequer pensar no sentido subjacente, como forma de proteger algo que consideramos valioso e inquestionável. De uma forma geral, tanto futebol quanto a política são encarados como religião (a política, depois da guerra fria e da queda do muro de Berlim, vem perdendo as características de religião vertiginosamente) e a religião, por sua vez, nunca foi fundamentada sobre os pilares da razão. A utilização da frase denota uma ligação puramente apaixonada e de reação automática que não envolve qualquer processo de ponderação ou raciocínio lógico. E a verdade, na maioria das vezes inconveniente, é que não existem assuntos inquestionáveis. Não há assunto acima da condição humana, acima do bem e do mal ou de abrangência hunanimamente universal. A alegação de que algo é inquestionável esconde sentimentos de segurança e conforto a respeito dos quais os usuários da expressão não querem abrir mão, pois apegaram-se apaixonadamente à uma idéia ou conceito sem questionar os fundamentos desses elementos.

Todo processo humano é passível de erro e não é pelo fato de sermos religiosos que nós estaremos livres dos erros, enganos, problemas, incertezas, teimosias, mal-entendidos, etc. Aliás, tais elementos participam da nossa vida de uma forma muito mais ativa do que nós podemos sequer imaginar, uma vez constatado que as nossas chances de acerto são mínimas frente ao fato das condições de erro serem proporcionalmente imensas. Tal afirmação fundamenta-se na constatação de que nosso conhecimento sobre a realidade é extremamente pequeno e precário (vejam o vídeo Pálido Ponto Azul e o post "Não Sabemos Nada"). Desta maneira, a disposição para estar aceitando essas limitações inerentes ao ser humano, independentemente de qualquer agremiação, filosofia, crença ou visão particular acerca das coisas poderia ser o primeiro passo para estarmos revendo todos os nossos referenciais existentes. E quando escrevo "todos" são "todos mesmo". Não é pelo fato de torcermos para um time específico, estarmos filiados a um partido X,Y ou Z ou seguirmos a religião mais popular que estaremos livres de enganos. Muito pelo contrário, a religião existe desde que o mundo é mundo e nem por isso nosso planeta deixou de ser um lugar de muito sofrimento. De vez em quando, ouço alguém comentar que o mundo melhorou muito depois que o Crisitianismo surgiu, sendo esta mais uma afirmação falaciosa, bem ao estilo "futebol, política e religião não se discutem". Quem diz isso ou está defendendo "seu time" ou desconhece por completo a história da civilização ocidental para entender que o mundo, na verdade, piorou muito depois que o Cristianismo surgiu. Mas quem vai se dar o luxo de estudar a fundo a história do mundo ocidental, não é mesmo? Aliás, recentemente o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, ironizou ao comentar que os cristãos não lêm a Bíblia. Embora ele tenha generalizado, devo concordar que existe pouquíssimo interesse por parte dos cristãos em conhecer as origens ou desenrolar da própria história do Cristianismo.

Mas afinal, que posicionamento é esse? Por que partimos do princípio de que existem coisas que não devem ser discutidas? É o apego à tradição, na ilusão de que tais premissas, amplamente aceitas pela sociedade, representam uma base sólida sobre a qual nós podemos nos acomodar com segurança. E isso sempre foi uma percepção muito falha: a esmagadora maioria das pessoas acreditava que o Sol girava ao redor da Terra quando Copérnico defendeu as bases de um modelo heliocêntrico. E a maioria estava certa? É óbvio que não... Sob o ponto de vista religioso, é claro que a sabedoria e os ensinamentos presentes em muitas filosofias milenares não deveriam ser desconsiderados, porém, há que se reconhecer humildemente as inúmeras limitações decorrentes de modelos arcaicos cujas estruturas há muito não correspondem mais com as conquistas, descobertas e necessidades do mundo moderno. Assim eu volto à questão atual do chavão que dá título a este post: se uma idéia ou conceito são realmente bem fundamentados, não há questionamento que possa colocá-los em xeque, não havendo nenhuma razão para temermos qualquer discussão. Porém, não é isso o que acontece. Buscamos sim defender o nosso ponto de vista, sem ao menos considerar a mais remota possibilidade de que ele possa estar errado. E ao utilizarmos o referido clichê estamos querendo dizer, na verdade, que estamos protegendo algo sagrado. Se esse "algo", todavia, fosse real e bem estruturado em bases sólidas, não precisaria da nossa desesperada proteção...

Em suma, a triste realidade é a seguinte: não há um compromisso com a verdade. No fundo, não estamos a fim de descobrir a verdade sobre as coisas. Se assim o fosse, não haveria mais religiões se proliferando pelo nosso mundo e nós não teríamos tanto medo de ter acesso ao conhecimento.

Abs:

Marcio