quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Arautos da Idade Média

No post Brasil Abre As Pernas Para O Vaticano”, eu fiz um comentário sobre a extinção de uma linha mais socialista dentro da Igreja, tal qual foi a Teologia da Libertação nos anos 1970, em detrimento do crescimento da direita, focado muito mais no indivíduo e na família. Falei sobre o crescimento de um movimento ultra-tradicional e mencionei até uma eventual volta do falecido movimento TFP (Tradição, Família e Propriedade). Opa! Falecido movimento? É... Infelizmente, me enganei feio... Esse grupo não só ainda existe como está ganhando cada vez mais força, só que agora utilizando uma outra denominação: Arautos do Evangelho. Ironicamente (seria cômico se não fosse trágico), neste final de semana prolongado, um grande amigo meu foi vítima de uma associação católica de extrema direita que, para a minha surpresa, descobri ser uma dissidência do TFP (pasmém!). Mas vamos ao incidente do meu amigo com o "ressuscitado" grupo fundamentalista cristão:

Meu amigo é casado, sua mulher compartilha do seu ponto de vista "filosófico" e ambos são pais de uma filhinha de 6 anos. Constituem uma família agnóstica que vive de forma pacífica em um condomínio fechado cuja localização será omitida em respeito aos envolvidos. Ao receber no domingo, dia 11 de Outubro, uma ligação dos Arautos do Evangelho dizendo que os membros dessa organização estariam fazendo uma visita à sua casa, levando a imagem da Virgem Maria numa espécie de novena, meu amigo, respeitosamente, agradeceu e disse que não estava interessado. Questionado sobre as razões desse seu desinteresse (até então ele não havia sentido qualquer necessidade de entrar no mérito da questão), meu amigo mencionou que era ateu. Pronto! A partir de então, começou uma série de ligações, insistindo para que meu amigo aceitasse a visita deles, dizendo que tinham aberto uma paróquia dentro do condomínio (pasmém!) e até oferencendo presentes em nome do bispo deles como forma de chantagem. Meu amigo, irritado com tamanha insistência, disse que não gostaria de ser mais importunado e que era para deixarem ele e sua família em paz. Pouco tempo depois, ao sairem em pleno domingo para almoçar e já do lado de fora da casa, preparando-se para entrar no carro da família, um automóvel com 4 homens vestidos à caráter (túnicas de cor marrom e uma cruz estilizada no peito) apareceu na frente da sua casa e os estranhos ocupantes começaram a olhar para ele de forma ameaçadora. Tudo isso dentro de um condomínio fechado, local ecolhido pelo meu amigo justamente para ser um refúgio seguro para sua família!


Meu amigo relatou-me esse absurdo acontecimento hoje e, por pura curiosidade, decidi investigar sobre os Arautos do Evangelho na Internet – e fiquei embasbacado com o que eu descobri! Não se trata de uma pequena associação religiosa sem grande expressão e sim um poderoso grupo católico reconhecido pelo Vaticano e com presença confirmada em 78 países. Os caras são uma bem-sucedida dissidência do TFP, resultado de um racha ocorrido por ocasião da morte do então presidente da organização, Plínio Corrêa de Oliveira. E para quem não faz a mínima idéia do que foi o TFP e acha o teor deste post algo sem a menor importância, vale aqui um pequeno mas importante histórico:

Baluarte do anticomunismo, cultuadora de ícones medievais, propagandista da castidade, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a TFP, foi um dos movimentos mais conservadores e reacionários do Brasil até meados da década de 1990. Com forte envolvimento na política da sociedade brasileira, colaborando inclusive com o regime da ditadura militar, se dependesse da organização direitista o mundo de hoje continuaria chafurdando nos negros pântanos da Idade Média. Desde a morte de seu criador, Plinio Corrêa de Oliveira, a entidade vinha sendo tocada pelos seus oito sócios-fundadores, como mandava o regulamento criado em 1960. Um movimento rebelde, no entanto, anulou o estatuto da TFP, valendo-se de um dispositivo legal segundo o qual uma sociedade civil sem fins lucrativos não pode ser gerida sem consulta a seus integrantes. Em meio a várias idas e vindas jurídicas, os rebeldes convocaram uma assembléia, elegeram uma nova diretoria e, em plena quarta-feira santa, tomaram posse do casarão do bairro paulistano de Higienópolis onde funciona a sede da entidade. Chegaram acompanhados de cinqüenta policiais – e, ao entrar, constataram que vários tapetes e imagens haviam sido levados pelos seus antecessores. Os antigos gestores da TFP perderam o direito não apenas ao teto, mas também à sigla e até ao brasão. O leão rampante sobre fundo vermelho estampado nos estandartes da entidade era referência a um grupo de militantes da Igreja tradicionalista do início do século XX. Impossibilitados de usá-lo, os sócios-fundadores adotaram um leão parecido, só que com cara de bravo e segurando uma espada de fogo – talvez para mostrar que não irão desistir da briga facilmente.

Quem entra no site da associação e da faculdade dos Arautos do Evangelho não deixa de notar com espanto o apelo medieval da sua arquitetura, ornamentos, roupas e adereços. Impressiona também a utilização de coturnos (botas do exército) por debaixo da túnicas, fazendo clara alusão à disciplina militar e utilização de força, caso seja necessário defender aquilo que for considerado como "sagrado" (vale reforçar aqui o comportamento ameaçador na frente da casa do meu amigo). Para quem leu o Código da Vinci, as imagens dos seguidores remete-nos muito às descrições do obscuro personagem de Dan Brown, Silas, integrante da organização cristã conhecida por Opus Dei em sua famosa obra. Enfim, trata-se de um movimento fundamentalista de extrema direita, retrógado e altamente poderoso, o qual ganha cada vez mais espaço na região metropolitana de São Paulo. Com uma grande escola na região da Granja Viana e uma monumental construção conhecida no local como "castelo", a qual devastou 12 mil metros quadrados de mata nativa próximo aos condomínios de alto padrão da Serra da Cantareira, a estratégia de crescimento da organização visa apelar para as classes mais abastadas, já que a própria associação é proprietária de 250 imóveis somente no Brasil.

Fica aqui o meu protesto contra essa abordagem desrespeitosa e entimidadora por parte dos Arautos do Evangelho bem como nossa atenção redobrada para o perigoso crescimento de inúmeras seitas no Brasil, especialmente movimentos já conhecidos e com passado condenável. A expressão "o brasileiro tem memória curta" nunca foi tão atual e pertinente, sendo muito assustador organizações como esta voltarem à tona com a omissão e consentimento da nossa sociedade. A constituição brasileira prega a liberdade de culto mas não menciona nada sobre "liberdade para evangelizar", sendo este segundo item o objeto de crítica mais fundamental deste post. Sendo um país altamente religioso, tendemos a fazer vista grossa para os processos de evangelização, coniventes que somos com a conversão de novos adeptos sob a alegação de que vivemos em um país que goza de liberdade religiosa. E tal argumento é utilizado para justificar a crescente escalada do Cristianismo nas suas mais diferentes formas e pelos mais condenáveis meios, sendo que, por outro lado, a liberdade areligiosa não é mencionada em canto algum. Ateus e agnósticos não estão com seus direitos assegurados pela constituição também?

Embora seja infantil insinuar que a Opus Dei nos moldes da descrição de Dan Brown e os Arautos do Evangelho constituem a mesma coisa, o Código da Vinci não parece ser mais assim algo tão ficcional. Logo, espero que os leitores não sejam abordados por um "Silas" da próxima vez que estiverem saindo para almoçar em um lindo domingo de sol. Se derem esse tremendo azar, não venham dizer depois que foram pegos de surpresa...

Abs:

Marcio

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Anatomia de Um Segredo

Não é a primeira vez que exploro a temática dos paradigmas neste blog mas confesso que é a primeira vez que tenho dificuldades em lidar com o assunto em questão, visto que fui testemunha ocular de uma realidade muito raramente aceita como algo possível, vivenciando na prática a violenta quebra de um paradigma. Conforme foi mencionado nos posts "Evangelização" e "Tudo é Bolha", nossos velhos paradigmas, como sempre, procuram atuar de uma forma castradora, inibindo qualquer explicação fora do contexto padrão. No campo da ciência, por exemplo, os critérios de aceitação daquilo que subentende-se por “experiência real” na cultura do ocidente devem obedecer o mundo objetivo descrito por Descartes e Newton. Qualquer afastamento na descrição dessa “realidade objetiva” é encarado como consequência de uma imaginação fértil ou até mesmo de uma anomalia mental. As vezes, porém, um evento ou elemento novo podem entrar em nossa vida, resultando num verdadeiro “choque de realidades” que faz cair por terra as nossas velhas concepções acerca da realidade. A estória a ser descrita a seguir é verídica porque fui testemunha ocular do evento em questão. Local, data, pessoas, circunstâncias e sequência cronólogica são todos reais. Trata-se da descrição fiel de um evento que realmente aconteceu mas que muitos interpretarão como uma obra de ficção científica, produto de alguém que quer chamar a atenção ou até mesmo o resultado do uso de drogas. Todavia, saliento que o alcance do meu blog em termos de audiência é simplesmente insignificante, nunca fui usuário de drogas, o evento não foi inventado e é um exemplo bastante útil de como a nossa percepção sobre o conceito de “realidade” pode estar “desfocada”.

Em Novembro de 1994, durante um feriado prolongado, eu estava no perímetro externo do Parque Nacional de Itatiaia, que cobre parte da Serra da Mantiqueira no estado do Rio de Janeiro, acampando com um grupo de amigos. Estávamos instalados num local conhecido por Brejo da Lapa. O lugar era maravilhosamente belo: cercado por montanhas, havia um pequeno lago rodeado em parte por um brejo, em parte por terra firme com vegetação rasteira e uma estrada de terra num nível um pouco mais acima, ligando de um lado o longo trajeto até o asfalto e do outro o caminho até o Parque Nacional de Itatiaia, onde fica o magnífico Pico das Agulhas Negras. Era noite e, naquela época, a região bucólica ainda era um refúgio ideal para a prática de acampamentos selvagens, antes do IBAMA proibir tal atividade na área por causa de visitantes inconsequentes que começaram a poluir o local. Éramos um grupo aproximado de vinte pessoas, sentados em forma de meia-lua ao lado do lago. A grande maioria das pessoas estava sentada de costas para a estrada, ouvindo nossa amiga Angélica, no centro, comentar sobre certos exercícios orientais de respiração e relaxamento. Eu estava na outra extremidade da fileira de pessoas, as poucas que podiam contemplar parte da estrada de terra, junto com a minha namorada na época, Márcia, uma amiga chamada Regina e mais um rapaz cujo nome infelizmente eu não lembro.

Estávamos ouvindo a Angélica falar quando algo estranho chamou a minha atenção próximo a um trailer de um amigo nosso, parado na beira da estrada. Eu calculo que estávamos mais ou menos uns 40 metros do trailer, quando uma luz muito tênue mas visível o suficiente para chamar a minha atenção começou a aparecer. Era incrível… Por detrás do trailer surgiu uma figura humanóide irradiando luz do próprio corpo que começou a caminhar pela estrada. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Tentei localizar qualquer foco de luz que pudesse denunciar uma brincadeira por parte de alguém munido de um “projetor” mas não vi absolutamente nada. Não havia ninguém na estrada além daquela estranha figura. O que era aquilo? A despeito da peplexidade da visão tive uma inesperada reação de ficar simplesmente quieto. Tinha a sensação, não sei porque, de que poderia perder o espetáculo caso fizesse qualquer estardalhaço. Só tive um impulso de cutucar a Márcia e perguntar em voz baixa se ela estava vendo a mesma coisa que eu, sendo uma forma também de conferir se eu não estava ficando louco. Para meu alívio, ela confirmou que estava vendo tudo também. Permanecemos quietos, atentos e de olhos bem abertos. Tratava-se da silhueta de uma figura humana esguia em forma de luz branca, concentrada, dando para perceber nitidamente a cabeça, o tronco, braços e pernas. Não era possível perceber detalhes tais como fisionomia, roupa, etc. Era como se a criatura fosse um holograma em movimento que emanava luz do próprio corpo, sem qualquer foco de luz visível fora dos contornos de seus membros. Uma luz contida nos perímetros de um formato humanóide, andando pela estrada de terra, sendo visivelmente mais alto que um ser humano comum (depois de terminada a estranha manifestação, calculamos que a figura deveria ter uns 2,5 metros de altura aproximadamente, tendo como referência de comparação a altura do trailer).

Alguns segundos depois de efetuar sua caminhada, a criatura parou e voltou-se para nós, como se estivesse olhando em nossa direção, como se soubesse que estávamos vigiando seus passos. Senti um arrepio correr pela espinha mas fiquei estranhamento calmo logo em seguida. Fiquei muito contente por estar observando algo tão inusitado mas era uma alegria serena, contida. Tive uma estranha sensação de tranquilidade e a criatura começou a caminhar novamente. Um pouco mais para a frente, a luz começou a desvanecer-se, perdendo a sua nitidez original, semelhante a um canal de TV fora do ar e cheio de “chuviscos”, até desaparecer por completo diante dos nossos olhos atônitos. Chequei com a Márcia, com a Regina e com o rapaz ao meu lado após o final da explanação da Angélica e eles confirmaram tudo aquilo que eu tinha acabado de ver. Fiquei muito feliz mas ao mesmo tempo perplexo. Havíamos visto algo totalmente fora dos padrões de qualquer explicação natural ou científica e ninguém acreditaria em nossa estória. Vale ressaltar que não havíamos bebido nada, nunca fomos usuários de drogas e sempre enxergamos muito bem. Mas a partir de agora, se estivéssemos dispostos a dividir tal experiência com outras pessoas, deveríamos estar preparados para a ridicularização do nosso testemunho.

Embora estivesse certo do que acabara de ver eu ainda não estava satisfeito. Eu queria livrar-me de qualquer possibilidade de engano ou mal-entendido. Foi quando pedi para a Márcia, a Regina e o rapaz ao meu lado permanecerem ali, no local da observação, pois eu gostaria de dirigir-me até a estrada para ver de perto por onde tal forma luminosa acabara de passar. O intuito era fazer o mesmo trajeto do humanóide para saber se não poderíamos ter confundido tal manifestação com algum fenômeno conhecido, tal qual a possibilidade de alguém estar andando por lá com uma lanterna acesa, por exemplo. Eu sabia que era plenamente capaz de diferenciar o estranho fenômeno de uma pessoa andando por ali com uma lanterna, afinal, já tinha visto pessoas passando por ali várias vezes durante a noite. Mas mesmo assim, insisti por pura precaução. Fiz o trajeto várias vezes, hora munido de lanterna acesa, hora apagada; com a lanterna acesa dentro do meu casaco e fora dele; andando depressa e andando devagar… Enfim, esgotei todas as formas pelas quais alguém andando por ali pudesse causar algum “efeito visual” fora do normal. Voltei depois para o encontro da Márcia, da Regina e do rapaz e pedi para que me relatassem o que tinham visto. Os três comentaram que em nenhum momento eu sequer havia me aproximado daquilo que havíamos presenciado. Para começar, a Márcia disse que eu aparentava ter quase a metade da estatura do indivíduo em formato de luz. E as peripécias com a lanterna e o casaco tampouco chegaram perto do efeito extraordinário que havíamos visto anteriormente. Senti um grande alívio novamente, afinal, havia confirmado a minha impressão inicial. Por mais que a maioria das pessoas ali presentes não tivesse visto o humanóide luminoso, por uma simples condição de posicionamento físico perante tal acontecimento, estávamos certos de que tínhamos confrontado nossas observações e de que não podíamos negar o que vimos. No dia seguinte ficamos sabendo que um grupo de pessoas acampadas numa barraca morro acima, um pouco mais distantes do que nós, haviam notado o estranho fenômeno também. Era mais uma confirmação de que não havíamos sido presas de um engôdo ou de um mal-entendido. Tínhamos apenas sido testemunhas oculares de uma realidade fantástica.

Carrego as lembranças deste acontecimento comigo por onde quer que eu vá. As vezes minha realidade diária choca-se de frente com as lembranças deste evento e procura-se impor, tentando convencer-me de que não vimos o que vimos ou de que tudo não passou de um sonho. Talvez se eu não tivesse eliminado na hora certos detalhes passíveis de questionamento hoje fosse um pouco mais fácil convencer-me de que fora um engano. Mas a realidade dos fatos não permite negar o que vimos. Interpretações para tal evento podem variar tanto quanto variam os nossos paradigmas, dando conotações esotéricas, espiritualistas ou religiosas para uma coisa não se enquadra na explicação culturalmente aceita. Pela minha perspectiva, porém, fiquei com a impressão de que tratava-se do subproduto de uma avançada tecnologia holográfica. E de onde tal tecnologia teria vindo os seguidores deste blog já devem estar montando a imagem em suas cabeças. Todavia, antes que os céticos se manifestem a respeito (eu mesmo sou um deles), vale lembrar que somente hoje, 15 anos depois do ocorrido, as primeiras experiências com hologramas nos moldes de "Star Wars" estão sendo efetuadas com sofisticados aparatos tecnológicos, elementos que não exisitiam na época, muito menos ainda em uma estrada de terra sem luz no meio do mato e a qual eu mesmo chequei em seguida com o intuito de encontrar qualquer forma de embuste (e não encontrei nada!).

Mas o que importa, no momento, é a dinâmica subjacente que faz tal manifestação ser apenas um dos exemplos do nosso comportamento diário de distanciamento e indiferença perante as coisas que não vemos, não sentimos ou não percebemos. Se certas pessoas vivem situações perante as quais a ciência oficial não consegue dar nenhuma explicação ou se eventos “oficialmente aceitos” ocorrem no país vizinho ou do outro lado do planeta isso não parece ser algo real. Como a estória de São Tomé retratada logo acima, só acreditamos naquilo que podemos tocar, colocando-nos arrogantemente como referência para aquilo que acontece ou deixa de acontecer sobre o mundo. E com a licenca de René Descartes, a equação para a arrogância é bastante simples: “não vejo, logo não existe”. Obviamente, nosso cotidiano implacável já encarrega-se de preencher o nosso tempo com problemas suficientemente grandes ao ponto de ficarmos preocupados apenas com aquilo que possui relação direta com a nossa vida. Por isso, não é preciso ser muito inteligente para entender porque tal evento virou um segredo praticamente intocável em minha lembrança. Com exceção de talvez meia-dúzia de pessoas, ninguém mais tem a mínima idéia do ocorrido. E não é para menos.

Por que estou abrindo o jogo agora? Não sei... talvez uma incapacidade em lidar com o insólito em um mundo cada vez mais padronizado culturalmente pelo continuismo da tradição em suas mais variadas formas. Está na hora de quebrarmos alguns paradigmas...

Abs:

Marcio

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Brasil Abre as Pernas Para o Vaticano

Eu estava errado ao mencionar ao longo de vários posts neste blog que estávamos caminhando rapidamente para uma Segunda Idade das Trevas. Na verdade, a Segunda Idade das Trevas pode estar já começando! O Brasil está prestes a deixar de ser oficialmente (extra-oficialmente nunca foi) um país laico! A Câmara dos deputados aprovou no último dia 26 o texto base da ratificação do acordo entre Brasil-Vaticano, o qual foi propositalmente mantido em segredo pelo nosso querido presidente Lula, sem dar qualquer satisfação ou submeter a sociedade brasileira à um referendo popular (não é de hoje que eu sinto cheiro de ditadura no ar). Uma pesquisa do IBOPE encomendada pelo grupo “Católicas pelo Direito de Decidir” mostra que 78% dos entrevistados são contrários ao acordo entre Brasil e a Santa Sé. Na pesquisa, até os católicos mostraram-se contra (pasmem!).

O acordo foi assinado no final do ano passado pelo presidente e o Papa Bento XVI em uma solenidade a portas fechadas. O texto apresenta um teor retrógrado sem tamanho, colocando nosso país na mesma situação da determinação republicana do final do século 19, a qual separou as instâncias entre Igreja e Estado. E isso é só o começo do retrocesso. Podemos recuar ainda mais...

O acordo garante uma série de altos privilégios para a Igreja Católica, tais como isenções fiscais para rendas e patrimônios de pessoas jurídicas eclesiásticas, manutenção, com recursos públicos, do patrimônio cultural da Igreja Católica como prédios, acervos, documentos etc., assistência espiritual aos fiéis internados em estabelecimentos de saúde, de assistência social, de educação ou similar, ou detidos em estabelecimento prisional ou similar e por aí vai. Além disso, o ensino religioso nas escolas públicas (o qual, do jeito como está, já é um absurdo inaceitável) vai ficar ainda mais abominável com o aumento das garantias da Igreja Católica de manutenção das aulas de religião. Isso abre terreno para a evangelização e doutrinamento de nossas crianças por um modelo estigmatizante e padronizado. A visão de mundo dos nossos jovens, já tão estreita em parte pela influência do Cristianismo, ficará muito pior pelo estabelecimento do Catolicismo no topo da hierarquia religiosa nacional, apoiada pelo próprio poder do Estado. Por conta desse agravamento do modelo educacional público através da interveção da Santa Sé, é oportuno divulgar o depoimento de uma professora do Estado do Rio de Janeiro, a qual comentou que o Estado laico, na verdade, já está morto:

“Nas escolas municipais do Rio foram interrompidas as aulas de educação sexual [em que se ensinava sobre DSTs, fecundação…] para dar lugar ao ensino religioso, por segmentos católicos e pentecostais que são contra a descriminalização do aborto e pregam a abstinência sexual antes do casamento. Esta lei foi sancionada pelo governo Rosinha Garotinho. Também nas universidades o movimento conservador avança muito. Na Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense testemunhei que, ao meio dia, funcionários vão para um culto religioso” (fonte: blog "Mulheres de Olho").

Se o negócio já está neste nível (confesso que fiquei embasbacado quando li), com que intuito o governo fez um “acordo na surdina” para piorar ainda mais, dando poderes à uma religião em particular e com isso gerando mais ódio e repúdio por parte das religiões menos representativas? E outra: quem perguntou se eu quero que os altíssimos impostos que eu pago sejam revertidos na manutenção e proliferação da Igreja? Isso é um atentado à minha liberdade! É dízimo imposto pelo governo! Não posso ser conivente com tamanho absurdo!

É meus amigos... Isso só vai piorar muito as coisas de agora em diante. Minhas previsões não estavam equivocadas em relação ao seu conteúdo e sim em relação ao tempo que demoraria para elas se concretizarem. Além de uma sociedade menos racional agora somos testemunhas de um governo menos racional e mais religioso. Isso, não pode acabar bem. Como ficarão os os ateus e os agnósticos diante de um governo mais religioso? Como ficarão os budistas, muçulmanos, umbantistas e hinduístas? Como ficarão os evangélicos, como a religião que mais ganha espaço em nosso país, diante de privilégios jurídicos que o governo intenciona dar ao Vaticano? Seremos um país mais ecumênico e pacífico por conta dessa arbitrária decisão do Estado em defender uma religião específica? Podem ter certeza que não...

A religião existe desde que o mundo é mundo e nem por isso o ser humano deixou de ser mais violento, tirano, manipulador e ignorante; muito pelo contrário, a religião sempre foi fonte de revolta, conflitos, violência, opressão e guerras. O velho chavão de que uma sociedade mais religiosa significa uma sociedade mais pacífica nunca esteve tão absurdamente voltado de costas para um mundo melhor. Não se garante liberdade religiosa fazendo acordos com uma religião específica. Historicamente, sabemos que isso sempre deu muito errado...

Boa sorte a todos:

Marcio

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Você Acredita em ET?

A pergunta acima, tão popular em nossa cultura, é um questionamento baseado em uma premissa muito errada. O assunto não pode ser tratado como uma simples questão de fé, como quem pergunta se acreditamos em duendes, anjos, fadas, fantasmas, etc. Muito pelo contrário: a temática requer necessariamente uma profunda investigação sem a qual torna-se insensato qualquer tipo de conclusão. Apenas dizer que o fenômeno não existe antes de efetuarmos qualquer investigação de considerável abrangência é tão incoerente quanto dizer que o fenômeno simplesmente existe sem qualquer base de estudo sério que apoie essa argumentação. Na verdade, este tipo de posicionamento constitui o ponto fundamental que separa os conceitos de ciência e religião nos dias de hoje: muitas pessoas preferem acreditar ao invés de saber. Ou seja, o que separa o cientista de um religioso é que enquanto o primeiro busca conhecer o segundo busca acreditar. A diferença entre conhecer e acreditar, embora aparentemente óbvia, é algo bastante subjetivo quando o assunto em questão é a temática ufológica. Ora, é muito mais fácil acreditar do que conhecer, posto que para acreditar faz-se imperativo tão somente assumir um posicionamento específico segundo nossas crenças, interesses, simpatias ou aspirações. Contudo, o conhecimento exige estudo, sacrifício e resultados a longo prazo, não necessariamente à favor de uma conclusão predeterminada. Assim, a ciência age da forma mais difícil ao passo que a religião funciona da forma mais fácil, fornecendo as respostas "definitivas" para os satisfeitos e preguiçosos. As complexidades envolvidas na construção do conhecimento empírico, na maioria das vezes indesejáveis para uma mente ávida por respostas (sejam elas de natureza fácil ou difícil), acabam aproximando a Ufologia mais de uma questão religiosa a ser defendida do que de um fenômeno concreto a ser estudado.

Paradoxalmente, algumas vezes até certos cientistas acabam embarcando em uma visão religiosa por “acreditarem” que o fenômeno não é real sem a devida investigação prévia. O ponto central desse posicionamento, obviamente, não é o fato dos cientistas em questão possuírem um comportamento gnóstico e sim o fato de que agem segundo seus próprios paradigmas e interesses. Paradigmas opostos, no entanto, podem fazer da exploração da temática extraterrestre algo extremamente útil, contribuindo, por exemplo, no entendimento de como a vida surgiu e desenvolveu-se aqui na Terra. Uma vez que a área de estudo deve incluir disciplinas como Física, Astronomia, Cosmologia, Metereologia, Engenharia Aeroespacial, Microbiologia, Exobiologia, Antropologia e até Filosofia, é óbvio concluir que o resultado dessas investigações pode trazer muitos benefícios para o investigador. Contudo, o campo de estudo talvez mais negligenciado nas investigações ufológicas, o qual poderia trazer muita luz ao presente estudo, é o ramo da Psicologia/Psiquiatria. O fenômeno humano é sem dúvida muito mais complexo que o "fenômeno alienígena" e dá pleno arsenal para manchar a imparcialidade nas investigações com toda a sorte de equívocos, mitos e crenças antes mesmo dessas investigações começarem. Todos os envolvidos, sejam ufólogos, testemunhas, interessados, fanáticos ou céticos fazem parte do "panteão humano" que deve ser muito bem conhecido antes de tomarmos um posicionamento a respeito. E quem leva a investigação adiante (geralmente um ufólogo) não pode nunca esquecer que deve ser objeto de questionamento, tão ou talvez mais intensamente questionado que o próprio assunto investigado.

A polêmica questão, obviamente, ficará muito mais a critério de cada leitor do que à mercê de uma posição oficial, definitiva e portanto extremamante limitada a respeito de todas as implicações do fenômeno ufológico. Especular sobre a exstência de vida alienígena e a possibilidade de algumas civilizações estarem visitando a Terra é tentar lidar com deduções muito além dos paradigmas culturais da nossa sociedade, sendo portanto qualquer estudo ou interpretação aspectos que devem ser meticulosamente revistos com o passar do tempo. A mensagem que fica, no entanto, fundamenta-se na imensa possibilidade de um confronto mundial com a realidade extraterrestre ocorrer mais cedo ou mais tarde, seja através da iniciativa por parte deles em aparecer de forma aberta em nosso planeta, ou seja por intermédio de um encontro casual e inegável com esses seres no espaço, ainda que de forma remota por uma sonda ou robô. Sob este aspecto, a honesta análise da história da raça humana bem como toda a problemática sócio-cultural do período em que vivemos revela-nos um quadro permeado pela nossa incapacidade atávica em lidar com os relacionamentos humanos. E se houver em nós o sincero interesse de sermos exploradores do espaço dignos de usufruir da sua incomensurável grandeza faz-se necessário uma ampla reavaliação das relações humanas em nosso pequenino planeta. Só assim estaremos respondendo positivamente a uma questão ainda mais perturbadora que o título deste post:

“Existe vida inteligente no planeta Terra?”

Abs:
Marcio

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Crescei e Multiplicai-vos

Ao aguardar um prato feito em um restaurante do Top Center da Avenida Paulista, fiquei obervando quantas pessoas trafegavam pelo local. Já havia notado o enorme fluxo de pessoas na calçada e agora observava os transeuntes indo e vindo, subindo e descendo as escadas rolantes, desputando um lugar para comer em uma praça de alimentação completamente lotada.

Ao observar todo o movimento, fiquei especulando sobre o quanto somos hoje em dia e quais as consequências do nosso impacto sobre o meio ambiente. Em um artigo da Veja online eu li recentemente que a população mundial atual gira em torno de 6,8 bilhões, chegando aos 7 bilhões em 2012 e aos 9 bilhões em 2050! E aí eu me pergunto: para que tanta gente? Isso é realmente necessário? Ou, muito pelo contrário, é um sinalizador de um problema seríssimo que é o crescimento desenfreado e sem lógica da raça humana, análogo ao crescimento indesejado de um câncer? Se pararmos para analisar a questão em profundidade, veremos que infelizmente somos um problema tanto para o planeta Terra.

Quem viu o documentário da NatGeo Hits chamado “O Consumo Humano” (Human Footprint) sabe o quão assustador é o nosso impacto predatório sobre o meio ambiente. As estatísticas foram feitas com base no consumo médio dos ingleses ao longo de suas vidas, resultando em números alarmantes por indivíduo: 74.800 xícaras café, 30.000 barras de chocolate, 8 carros, 7.163 banhos, 656 sabonetes, 11.000 absorventes femininos, 6.000 litros cervejas, 1.694 garrafas de vinhos, 4.388 rolos de papel sanitário, 50 toneladas de comida e por aí vai. Agora, imaginem isso multiplicado por 7 ou 9 bilhões de pessoas!

Em que pese aqui a imensa complexidade do tema, a ausência de controle da natalidade deve-se, em parte, à influência da religião. A popular expressão bíblica “Crescei e multiplicai-vos” (Genesis 1:28) costuma ser usada para justificar o comportamento completamente fora de controle no que se refere à temática da procriação. Mas pior ainda é o restante do versículo: “Enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. Ou seja, “atue sobre o mundo de uma forma predatória”, dando idéia de que além de ser desejável uma multiplicação desenfreada, os recursos naturais existem para serem explorados à vontade pelo ser humano. Sim, está na Bíblia, com todas as letras para quem quiser enxergar.

O fato do Vaticano ser contra o uso da camisinha assim como outras vertentes cristãs são a favor do sexo apenas para finalidades reprodutivas é uma forma totalmente inconsequente e prejudicial de ver o mundo. A disseminação de doenças sexualmente transmissíveis e o total descontrole sobre a natalidade são os resultados nefastos da visão pecaminosa envolvendo o sexo que o Cristianismo dissemina de uma forma ou de outra. A reprovação do prazer sexual, então, só pode ser encarado como uma piada e mostra-se totalmente na contramão da abordagem de outras crenças que encaram o prazer sexual com muita naturalidade (vide a filosofia tântrica no Hinduísmo ou a divindade Baco – ou Dionísio – dentro do panteão greco-romano).

Isso sem mencionarmos a questão do estupro. A recente polêmica causada pela barbaridade envolvendo o caso da menina de 9 anos em Alagoinha, Pernambuco, que foi estuprada pelo padrasto e ficou grávida de gêmeos é um claro exemplo de total despreparo da Igreja para lidar com o assunto. A menina foi submetida à uma cirurgia para interromper a gravidez de altíssimo risco e depois, o infeliz Arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, comentou que o aborto é um crime mais grave do que o estupro, excomungando da Igreja Católica a mãe e os médicos envolvidos no procedimento cirúrgico (vejam a matéria no site da Folha). O estuprador não foi excomungado (pasmem!) e o enorme sofrimento da menina de 9 anos foi completamente desconsiderado pelo religioso.

Assim, vemos que a abordagem do sexo, do controle da natalidade, da procriação e do estupro por parte do Cristianismo reflete apenas um aspecto da influência perniciosa desta religião sobre os rumos do mundo. Outros aspectos negativos da sua forte influência sobre a sociedade serão abordados mais adiante, em um momento mais oportuno.

Enquanto isso, sugiro que façamos muito sexo regrado apenas por uma boa dose de consciência.

Abs:

Marcio